domingo, 30 de outubro de 2016

A VELHA GUARDA




(Saúda-se o regresso de Vicente Jorge Silva às crónicas jornalísticas, e só alguém com a sua espessura podia dizer preto no branco que Mário Centeno está refém das exigências do Ronaldo AD da banca)

Vicente Jorge Silva estará para sempre ligado à minha ideia de jornalismo, com memórias mais ou menos longínquas, que vão desde o Comércio do Funchal às expectativas de futuro que o aparecimento do Público suscitou na minha geração.

Estou-me nas tintas para os motivos que determinaram o seu regresso às lides da crónica jornalística na última página do Público, o que simplesmente me interessa é o regresso em si e sobretudo a possibilidade de reencontrar a espessura da escrita de quem pode aspirar a essa espessura ou peso das palavras, como quiserem.

E, de facto, só alguém com esse peso, pode escrever preto no branco que o ministro das Finanças Mário Centeno está progressivamente refém das exigências obscenas de António Domingues, e esclareça-se não estou a falar das exigências de remuneração. Como já ficou aqui claro em post anterior, não partilho o falso moralismo dos indignados com a remuneração, de Catarina Martins ao CDS. A ideia do governo, tal como o sustenta Clara Ferreira Alves, parece ser a de gerir a CGD nos termos mais competitivos possíveis com a restante banca portuguesa e esse terá sido o mandato comunicado ao gestor AD. Ou seja, gerir um banco público com a máxima eficiência de um banco privado e isso paga-se, tendo para mim que não é esta remuneração está sobrevalorizada, toda a alta remuneração do sistema financeiro português o está, o que é outra coisa completamente diferente. Mas apesar desse mandato, é de um gestor público que estamos a falar, pois a gestão incidirá sobre recursos públicos e não privados. Por isso, é de uma falta de tato inaudita deixar a controvérsia evoluir nesta direção. As baterias parecem apontadas a Mário Centeno e com razão, embora António Costa tenha de preparar-se pois vai sair salpicado de toda esta trapalhada.

O que parece algo incompreensível é que Mário Centeno penalize a sua muito airosa saída da apresentação do Orçamento de 2017 com esta submissão a um gestor que, pelo contexto criado, tem todas as condições de vergar o próprio Ministro, pois nem quero imaginar o que representaria para o dossier CGD o abandono de Domingues, incomodado tal qual Madalena incompreendida pelas exigências de transparência.

Já tinha ficado algo confundido com a atribuição de louros a Mário Centeno pela negociação realizada com a Comissão Europeia e a supervisão do BCE acerca das condições de recapitalização da CGD. Pela minha intuição, isso deverá ter sido repartido com outras influências exercidas a partir do Banco de Portugal. Caso o tenha sido, teria ficado bem a Centeno exprimir esse agradecimento. Estou agora também confundido com a divisão das responsabilidades entre o que estará a passar-se em matéria de exigências do gestor AD entre o ministro Centeno e António Costa. É espantosa a brecha criada neste assunto pelo governo quando em relação ao comportamento ausente e irresponsável do governo Passos Coelho estavam todas as condições criadas para mostrar que era possível fazer diferente e sobretudo mais atempadamente.

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