(Creio que este
blogue foi dos primeiros a alertar para os efeitos da crise de 2007-2008 no
enfraquecimento da globalização, e a prova é que as evidências que apontam nessa direção são cada vez
abundantes e diversificadas)
Embora, aceitemo-lo como
algo de inevitável, o Interesse Privado,
Ação Pública acabe por ter um alcance reduzido de disseminação, pode orgulhar-se
sem falsa modéstia de estar na primeira linha de divulgação de temas
estruturantes. Um dos últimos Expressos dava conta, com algumas semanas de
atraso em relação ao destaque que lhe dei em mais do que um post, do manifesto que
Paul Romer escreveu acerca da deslealdade com que o mainstream da macroeconomia se vai escondendo de uma crítica aberta
à sua queda como ciência rigorosa e sujeita à contra-evidência (ver sobretudo
este post, aqui). A questão do recuo da globalização está nesse grupo e uma vez
mais retomo o tema, hoje a propósito de um pequeno contributo de uma das mais
estimulantes jornalistas económicas do Financial Times, que escreve regularmente
no Alphaville, Izabella Kaminska de sua graça.
Num artigo publicado no Alphaville do dia 11 de outubro, Kaminska abre a série de evidências com que descreve a agitação
dos ventos da globalização com um gráfico pouco habitual entre os indicadores
que medem a progressão da globalização (ver gráfico abaixo). Trata-se de um
indicador que mede a evolução dos créditos bancários de natureza transnacional,
que acaba por ser uma espécie de outra face da moeda da integração económica e
financeira. A similaridade de comportamento desta variável com os mais conhecidos
rácios “comércio mundial /PIB” é bem significativa, o que aponta para uma ideia
central: evidências de natureza diversa convergem na ideia de que a globalização
está a passar-se.
O artigo tem outras
curiosidades e uma delas prende-se com a ideia alimentada por alguns economistas
“coca-bichinhos” das estatísticas do comércio global. Segundo esses economistas,
o crescimento do peso do comércio mundial em relação ao produto estaria
empolado nos anos chave do avanço das cadeias de valor globais, pelo que o recuo
agora observado pode corresponder, senão totalmente pelo menos em grande medida
a um reajustamento de medida. O empolamento resultaria de uma dupla contagem
das transações de produtos intermédios, enquanto importações e como exportações
já transformados, que pode bem acontecer pelo menos enquanto as estatísticas de
comércio internacional não forem expostas em função do valor acrescentado das
exportações e não de exportações tout
court. Não conheço qualquer estudo credível que quantifique o significado desse
empolamento e a própria Izabella Kaminska também não cita qualquer estudo concreto.
Apesar desse risco de má
quantificação, o que não podemos ignorar é o encurtamento que tem vindo a
observar-se nas cadeias de valor globais, com recuo do comércio de produtos
intermédios, do fenómeno da offshorização
e com a correspondente evidência de que sobretudo na economia americana as práticas
de “reshoring” estão a intensificar-se.
Não está ainda totalmente percetível o que está por detrás dos fenómenos de reshoring. Será uma consequência da
evolução salarial nas economias emergentes? Será apenas o efeito do redireccionamento
securitário do investimento direto estrangeiro o qual tem vindo a diminuir
significativamente com origem nas economias mais avançadas? Não sei se o primarismo
do alucinado Donald Trump dará para perceber que tem aqui um vasto campo de
florescimento do tosco nacionalismo económico. Mas começa-se a compreender
melhor a vinda do Economist em defesa dos valores mais profundos da globalização
de há quinze dias.
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