terça-feira, 11 de outubro de 2016

FINALMENTE ALGUM PENSAMENTO PSOE




(Por estes dias, o PSOE funciona em cima de brasas, dilacerado pela estranha opção de uma queda mais que possível em terceiras eleições ou de viabilizar a investidura de Rajoy, embora sem assegurar a governabilidade de Espanha)

Pedro Sánchez anda perdido na busca de um lugar no Congresso de Deputados que assegure por um lado a não vulgarização de um ex-líder e garanta, por outro, alguma preservação de imagem após a sua atormentada demissão. Estou com curiosidade em saber a que fila do hemiciclo vai corresponder esse equilíbrio.

Entre a militância de base não se consegue aferir com rigor a que percentagem corresponde a divisão entre os que se recusam a aceitar a governação de Rajoy e os que vêm na viabilização da investidura um mal menor, algo que permita o partido tomar algum ar para traçar o seu rumo futuro. Entre os deputados eleitos na eleição anterior, aparentemente só os socialistas catalães ameaçam romper a disciplina de voto e votar contra a investidura de Rajoy.

Entretanto, Javier Fernández, presidente do Governo Regional das Astúrias e presidente do Comité de Gestão Federal do partido que o vai aguentando durante esta longa tormenta, vai trazendo ao debate interno e à opinião pública espanhola algum pensamento que os decibéis das duas últimas semanas tinham inapelavelmente apagado. Não deixa de ser curioso e simbólico da situação política espanhola que seja um presidente de comunidade autónoma a impor alguma calma no seio do partido e das suas abaladas instituições. Aliás, Javier Fernández é das vozes mais ouvidas no PSOE mais profundo.

O presidente do Comité Federal que reunirá para início de debate conclusivo no domingo de 23 de outubro reatou o relacionamento institucional com o PP, mais propriamente com Mariano Rajoy, e lá vai sublinhando que a eventual abstenção na investidura não significa garantia à governalidade diária em jeito de cheque em branco que Rajoy endossaria a quem pretendesse. Depreende-se destas palavras que o PSOE que alinha com a viabilização da investidura de Rajoy se prepara, para no dia-a-dia da governação e do Congresso de Deputados, vender cara a governabilidade. Surpreendentemente, ou talvez não, Rajoy tem vindo a alinhar-se com esta posição do PSOE, reafirmando que está disposto quotidianamente a conquistar essa governabilidade e já o enunciou publicamente.

Noutro plano, com destaque para a sua entrevista ao El País deste passado domingo, Javier Fernández tem rejeitado vigorosamente a entrada do PSOE nos meandros do populismo de esquerda que o PODEMOS protagoniza, demarcando terreno e ideário. Creio que lá no fundo do íntimo de Javier Fernández está a ideia de que o PODEMOS possa desagregar-se internamente. A formação de Iglésias já viveu melhores dias, parecendo emergir no seu seio duas orientações, a mais radical do próprio Iglésias e uma outra mais apontada a uma experiência de governação ou de apoio contratualizado à mesma. O debate interno no PODEMOS não chegou a esse apuro de delimitação de ideias (na calle ou nos meandros do poder?) e não é de afastar a hipótese de tal se produzir apenas depois de uma queda vertiginosa do PSOE, com perdas de eleitorado para o PODEMOS e para o CIUDADANOS.

De qualquer modo, pelas bandas do PSOE, algum pensamento parece emergir, depois do partido se ter atolado em taticismo. Já não era sem tempo. Mas a recidiva taticista pode surgir a qualquer momento, com ou sem terceiras eleições.

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