terça-feira, 25 de outubro de 2016

TÓXICO, INDECOROSO, CHOCANTE




(Em 1983, escrevi uma comunicação para uma conferência em Lisboa que se chamava “A degenerescência da base moral da economia portuguesa”, o que nunca pensei é que trinta e três anos depois o tema permanecesse tão atual e oportuno)

Há dias, num momento de revisita mais ou menos nostálgica, que raramente me acontece, a publicações minhas que se foram perdendo na memória do tempo, estive a reler um artigo que escrevi, em 1983, para uma conferência do CISEP – ISEG em Lisboa que se concentrava na EVOLUÇÃO RECENTE E PERSPETIVAS DE TRANSFORMAÇÃO DA ECONOMIA PORTUGUESA. O artigo chamava-se “A degenerescência da base moral da economia portuguesa” e recordo-me de alguns momentos saborosos de conversa com a Professora Manuela Silva, organizadora da referida conferência, a propósito do tema. A ideia era na altura trazer para a análise da economia portuguesa a evolução da base moral do capitalismo português, invocando pioneiramente em Portugal, na altura praticamente ignorada, a Teoria dos Sentimentos Morais de Adam Smith, obra fundamental para contextualizar a célebre mão invisível de um dos pais da economia política e tão enviesadamente lido nas vulgatas económicas que por aí proliferam.

No referido artigo, entre outras dimensões, analisava a degenerescência das relações entre o capitalismo empresarial e o sistema financeiro, intuindo que a economia portuguesa atravessava uma transição no seu sistema de valores. Nunca imaginei, sinceramente, que o tema se tornasse em matéria tão espessa, a ponto de degenerar em constrangimento endémico. Já na altura distinguia bem a questão da base moral da economia do advento de moralismos avulsos e alimentadores de populismos ressabiados. Nos últimos dias, o ar que se vai respirando na vida política portuguesa é tóxico e incomodativo, tudo isto apesar de tudo indicar que o orçamento vai passar, esvaziando um balão que muitos pensavam poder rebentar.

Senão vejamos. O que se tem passado na cena pública quanto à matéria de remunerações, regalias e outras isenções dos administradores da Caixa Geral de Depósitos é tóxico, indecoroso e chocante. Já perceberam por posts anteriores que não morro de amores pelos atores do nosso sistema financeiro, salvo raríssimas exceções que me dispenso de mencionar, pois essas pessoas sabem muito bem que a minha animosidade a elas não se aplica. Tenho claro que para mim uma grande maioria dos gestores e administradores está sobrevalorizada no mercado, sobretudo através de uma criteriosa (e habilidosa) compra de cumplicidades com os acionistas representativos, mantendo essa sobrevalorização mesmo em contextos em que, falando a linguagem que tal gente compreende, a dos resultados, a rendibilidade dessas organizações recomendaria uma maior modéstia e parcimónia de benesses remuneratórias. Tenho para mim que, se tais personalidades estivessem à frente de empresas a laborar em ambientes transacionáveis e fortemente competitivos, o mercado que tanto papagueiam já os teria corrido de cena. Invocando a distinção básica entre base moral e moralismos de pacotilha, aproveito para dizer que não me choca que a gestão pública tenha de ser bem remunerada para evitar que o setor público empresarial e não só esse seja o destino de incompetentes e protegidos pela manta diáfana dos interesses partidários. Mas o que se torna tóxico, indecoroso e chocante é tudo o que rodeia de secretismo e de negociações encapotadas para colocar à frente da CGD uma espécie de Ronaldo e Messi do sistema financeiro. O ambiente é tão indecoroso que o escoteiro Mirim comentador Marques Mendes se pode dar ao luxo de emergir como o grande guardião dos bons costumes na política, denunciando em horário nobre a incompreensível isenção que o Presidente da CGD teria em matéria de apresentação ao Tribunal Constitucional dos seus rendimentos e interesses.

Ávido de encontrar um espaço de sobrevivência política, Passos Coelho e o PSD que o segue submisso encontraram neste tema uma ampla plataforma para piscar o olho ao eleitorado sobre as virtualidades de viver em Massamá. Mais uma vez, as brechas abertas pela governação atual seriam dispensáveis. O governo está no seu direito de defender que um banco público estruturante para captar os melhores tem de pagar valores que anulem o custo de oportunidade dos que ousam trocar o setor privado pelo público. Só se espera que seja rigoroso e que a ausência de resultados tenha consequências remuneratórias. Mas se nessa negociação foi admitido qualquer topete de ficar acima de exigências mínimas e legais de transparência, já começo a compreender o epíteto com que o ainda então candidato à presidência da CGD seria tratado nos círculos próximos do Conselho de Ministros. Tudo isto é chocante a começar pelo líder da oposição a querelar na praça pública com o presidente de um banco público.

O ambiente começa a ficar irrespirável e não é da humidade que nos tem cercado. Não há aqui qualquer metáfora sobre a água que alguns protagonistas têm metido no exercício das suas funções.

Para tornar ainda mais irrespirável o ar comunicacional que nos rodeia, o dossier de praça pública que vai cercando a personalidade José Sócrates começa a ser incómoda para os mais próximos do dito. E esta de aparecer em palco um personagem da ciência política da Faculdade de Direito de Lisboa como alter ego dos escritos do ex-primeiro Ministro ainda adensa mais o ambiente. E os senhores da justiça que não desatam o nó do que é do processo e do que não é. Um arzinho de montanha purificada iria bastante bem para desanuviar toda esta pressão.

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