terça-feira, 18 de agosto de 2020

CAYETANA

 

(A política espanhola é indiscutivelmente mais viva e acesa do que a nossa e não é pela tormenta quase permanente em que tem vivido nos últimos tempos. Faz parte do traço comportamental e institucional dos espanhóis e para essa animação muito contribui a política no feminino. Embora tendo em conta a diferente massa demográfica em que em Espanha e em Portugal se faz captação de personalidades políticas, é deveras impressionante a densidade de personagens políticas femininas que elevam o nível da ação política em Espanha.

 

Ainda sem fibra cá pelas bandas de Coura-Seixas e por isso limitado à pobreza da televisão digital portuguesa (é verdade que o IPAD me coloca como se estivesse em casa, mas o meu conservadorismo televisivo gera uma preguiça de utilização desse meio), vejo-me nos braços da generosa cobertura que a digital espanhola de canal aberto tem em relação à portuguesa. Por isso, com uma franja de Espanha bem em frente à minha varanda, é natural que nestes tempos mais a norte acompanhe com outro ritmo a política espanhola.

 

CAYETANA Álvarez de Toledo (o nome impressiona e a figura também) irrompeu com estrondo na política espanhola quando assumiu o lugar de porta-voz do Partido Popular com a liderança de Pablo Casado. A telegenia do duo Casado – Cayetana rapidamente se fez notar nos media espanhóis, alinhando por uma geração de políticos mais jovens (Pedro Sánchez, PSOE e Albert Rivera, Ciudadanos, já retirado da vida política), que trouxeram ao panorama político espanhol uma outra imagem, dizendo as más línguas que isso não seria sinónimo de consistência e robustez. O estilo de comunicação da nova porta-voz contrastava com os tempos de comunicação de Rajoy e por exemplo do estilo de Nuñez Feijoo na Galiza e, quando o comparávamos com o gravitas de outras personagens femininas do PP (Ana Pastor, por exemplo ou mesmo de Soraya Saenz de Santamaría também hoje a ganhar o seu num prestigiado escritório de advogados de Madrid), rapidamente emergia a ideia de que, mais tarde ou mais cedo, a comunicação de Cayetana iria gerar problemas. Alguns analistas sublinharam que Cayetana se deixou influenciar pelo acosso que Abascal e o VOX começaram a fazer à direita espanhola e daí a virulência das suas intervenções. Inclino-me mais para a hipótese de Cayetana Álvarez de Toledo ter ambições e estilo próprios e alimentar a ideia de que um PP tão circunspeto e institucional não irá a nenhum lado relevante. É verdade que o estilo de liderança de Feijoo na Galiza mostra que é possível vencer com uma comunicação mais moderada, mas a Galiza é a Galiza, Fraga amansou a fera e preparou o caminho e a sua extrapolação para toda a Espanha talvez seja precipitada.

 

A contundência de alguns pronunciamentos de Cayetana no Congresso dos Deputados fez furor e ocupou as primeiras páginas, com destaque para o violentíssimo ataque a Pablo Iglésias (PODEMOS) referindo-o como filho de um terrorista, numa história mal contada e não fundamentada sobre o País Basco e que despertou um repúdio generalizado, inclusivamente em alguns setores do PP (com Feijoo à frente dessa opinião).

 

Pois Pablo Casado acaba de destituir a sua telegénica porta-voz, merecendo a esta última um comentário de fina extração: “o Senhor Casado entendeu que o exercício da minha liberdade política como porta-voz era incompatível com a manutenção da sua autoridade e em meu entender ter ideias contrárias não significa deslealdade” (resumo de várias intervenções). A fonte próxima que dinamitou a cessão de funções terá sido a entrevista dada recentemente ao El País em que ficou demasiado evidente que o PP de Cayetana não é seguramente, pelo menos por agora, o PP dos seus senadores, barões e outros que tais.

 

Para lá do choque de personalidades e estilos (e o de Cayetana está para a frente e não para trás), o que a saída de cena de Cayetana representa é a profunda interrogação que paira sobre o PP, o que equivale a dizer sobre a direita espanhola, pois em Espanha não temos equivalente de PSD em Portugal. O PP abrangia até há bem pouco tempo (até à emergência do VOX) todas as direitas em Espanha, desde a franquista resistente até às mais modernas tipo OPUS DEI ou liberal com forte associação aos meios empresariais. Se a esquerda espanhola está um frangalho, a direita não o está menos e é no PP que praticamente todas as contradições vão manifestar-se. A duração dessa transformação clarificadora poderá demorar mais tempo do que o necessário para forjar uma alternativa de governação e isso não é nada positivo atendendo ao discurso de rotura que o VOX vai alimentando.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário