quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O BLOQUEIO NÃO BLOQUEADO



(Todos reconhecem que o momento político espanhol é intrigante e perturbador. Mas talvez o seja mais se analisarmos o comportamento económico recente do país vizinho.)

O comentário político em Espanha tem abundantemente dissertado sobre o impasse político em que o país está mergulhado, dependente de contornos sinuosos de negociação entre o PSOE de Sanchéz e o PODEMOS de Iglésias, sempre com o espectro de novas eleições a pairar na perceção do futuro imediato.

O truculento Xosé Luís Barreiro Rivas (link aqui) toca na ferida mais exposta quando refere que uma coisa é o conjunto de pequenos problemas que têm bloqueado politicamente a negociação para a investidura de Sanchéz, outra coisa bem mais espessa são os problemas mais estruturais da sociedade espanhola, praticamente excluídos da agenda política imediata, como por exemplo o problema territorial e o prosseguimento de um modelo constitucional que mantenha a diversidade das energias autonómicas sem quebrar a unidade do país. O cronista galego sustenta que a situação política espanhola não é mais do que a manifestação de um problema europeu e mundial mais largo que se resume à combinação explosiva de três fatores: (i) as sequelas de uma crise financeira inicialmente mal diagnosticada e seguramente mal gerida; (ii) a desinformação e irresponsabilidade das correntes populistas que se abateram sobre os eleitorados e provocaram a doentia reatividade de algumas formações políticas; (iii) a vulnerabilidade que as democracias têm revelado face às manifestações da cidadania indignada e de uma forma de fazer política em função dos media, manipulados ou falseados não importa.

Concordo que os taticismos de Sánchez e de Iglésias, aos quais poderíamos juntar o de Rivera (CIUDADANOS), já que o PP por agora está apenas preocupado em conter os danos colaterais de mais uma pata na poça da corrução e do financiamento partidário tortuoso, podem ser entendidos como o resultado da projeção daquele caldo explosivo.

Mas há uma questão que tem atraído a minha curiosidade. Não se vislumbram sinais de que a sociedade espanhola no seu conjunto alinha em matéria de preocupações com o tom dominante do comentário político. E a situação não é comparável com outros longos períodos de gestação de soluções governativas, como por exemplo os longos apagões da Bélgica ou a também longa maturação da coligação entre o partido de Merkel e o SPD na Alemanha. Nesses países há tradição de longa maturação de soluções governativas. Em Espanha não é assim. Mas, apesar disso, o bloqueio político em Espanha parece não incomodar os espanhóis e não esquecemos que esse bloqueio é anterior às férias.

O gráfico que abre este post e o artigo do Financial Times (link aqui) que o integra talvez nos proporcionem a explicação adequada para este mistério da acalmia cívica.

A economia espanhola vive momentos contrastados comparativamente com os referenciais da Alemanha e da zona Euro. Se bem que eu próprio tenha assinalado, em post anterior, que as vendas de automóveis sofreram no último trimestre em Espanha um tropeção de grandes proporções, a verdade é que por influência das despesas de consumo a economia espanhola tem revelado um dinamismo comparativamente anómalo.

Como sabemos, o plano do consumo é aquele que permite uma melhor acomodação das incertezas quanto ao futuro, ao passo que o investimento reflete imediatamente essas interrogações. Os espanhóis alinham assim com a ausência da agenda política das questões eminentemente estruturais e vão gozando o presente. Um bloqueio não bloqueado? Sim talvez, mas seguramente algo que não é duradouro. Enquanto tal, usufrui-se e, temos de convir, os espanhóis sabem-no fazer melhor do que ninguém.

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