sexta-feira, 2 de março de 2018

CORBYN, APESAR DE TUDO!




(Theresa May e os Brexiters procuram desesperadamente aguentar-se no balanço numas negociações em que pedras no sapato imprevistas se sucedem. Até agora, o posicionamento dúbio do Labour sobre o Brexit não tem provocado grandes dores de cabeça aos Conservadores, em linha com a queda eleitoral dos Trabalhistas desde as últimas eleições. Mas Corbyn parece ser um corredor de fundo e uma nova jogada anuncia-se como fortemente constrangedora para o governo de May.

Já se percebeu que o tema Irlanda do Norte é um grande pedregulho no sapato de Theresa May, mesmo que este tenha sido já fabricado de modo a combater o efeito joanete. O contexto era previsível. Mas há dúvidas fundamentadas de que os Brexiters tenham antecipado o assunto. Estando a República da Irlanda de pedra e cal na União Europeia, uma saída do Reino Unido sem atender ao caso específico da Irlanda do Norte, provocaria o efeito de fronteira, não só lesivo da fluidez de relações económicas, comerciais e de pessoas entre as duas Irlandas, como suscitaria o regresso a tempos que as duas sociedades querem esquecer. Por isso, o tema Irlanda do Norte tem emergido nas negociações como ponto-chave dos últimos encontros entre o governo de May e os negociadores da União.

É claro que num cenário de permanência do Reino Unido na união aduaneira e no mercado único dos bens eliminaria esse problema.

O problema é que Theresa May, obcecada por manter os Brexiters no seu sítio, não lhes oferecendo temas de bandeja para o seu ressurgimento, tem evitado a todo o custo essa discussão, remetendo-o para depois da consumação da saída. Até há bem pouco tempo, o Labour tem-lhe feito o serviço de não precipitar essa questão. Porém, há dias, Corbyn movimentou-se no sentido de favorecer a discussão no Parlamento até 2019 da possibilidade do Reino Unido de permanecer na União Aduaneira, resolvendo o problema específico Irlanda do Norte e não comprometendo o resultado do referendo a favor do Brexit. Ou seja, o Parlamento pode ter de pronunciar-se sobre o assunto antes de ser consumada a saída da União.

Não imagino que posição irá o Labour defender nessa discussão. Mas qualquer que seja o desfecho dessa contenda e tendo bem presente o tema Irlanda do Norte, a verdade é que Theresa May deixou de controlar todo o timing político com que a sua estratégia de negociação e de discurso para o interior foi concebida.

Não posso deixar de recordar aqui a campanha serena e rigorosa de Simon Wren-Lewis em defesa dessa permanência na união aduaneira como mal menor de uma decisão desastrada. Nem sempre o discurso caro e fundamentado dos economistas cai em saco roto. Este não caiu (link aqui).

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