sábado, 6 de fevereiro de 2021

A SUPREMA ESPESSURA DA ELECTRA

 

(Só a força económica de uma Fundação como a da EDP pode colocar trimestralmente no prelo uma revista como a ELECTRA. Podem considerá-la de elite, sofisticada, pretensiosa até. Mas não tenho dúvidas de que já não se fazem revistas assim, com esta espessura e sentido cosmopolita da criação cultural. Saudemos mais um número, o nº 11, correspondente ao Inverno.)

            A ELECTRA não tem leitura fácil. É uma revista densa, um pouco no registo em que regra geral as crónicas de António Guerreiro (editor da ELECTRA) no Público, mais propriamente no ÍPSILON se colocam. Mas não conheço outro registo com a capacidade de nos colocar em linha com a criação cultural cosmopolita contemporânea, claramente pluridisciplinar. Nas cidades mais cosmopolitas, como por exemplo Nova Iorque, existem artefactos desse calibre, estou a lembrar-me da sugestiva BOMB Magazine, mas em Portugal penso que a ELECTRA é praticamente a única.

Gosto das revistas que se estruturam a partir da sazonalidade e também daquelas que se guardam e folheiam como se fosse uma peça de arte única, como se exigisse a sua presença em escaparate próprio, para não se confundir com as revistas correntes. A ELECTRA preenche essas condições.

O nº 11, correspondente à edição de inverno, não foge à regra. O tema central, a fama, na leitura da revista, constitui um contributo precioso para entendermos a contemporaneidade da comunicação em que estamos mergulhados. António Guerreiro brinda-nos com um excelente texto sobre a contextualização do conceito de fama, explicando de que modo o termo “mediático” ou “mediatização” o substitui no mundo da “iconomia” (iconografia, imagem, economia) devido a Peter Szendy. Mundo em que todos parecem loucos à procura de uma ordem de notoriedade que se substitua ao já desaparecido glamour, pois todos nos interrogamos sobre o que é determina a notoriedade de influencers, bloggers, you tubers ou outro qualquer fetiche que se apresente por aí batendo mais um recorde de visualizações.

O número de inverno tem algumas preciosidades.

Destacaria a parte dedicada a Trieste, a cidade das transições entre mundos, que há alguns anos uma impossibilidade legal de viajar de Itália para a Croácia em viatura alugada me impediu de visitar, não tendo nunca a oportunidade de compensar essa falha de planeamento de viagem. Trieste que serve de pretexto para trazer à revista um autor italiano Roberto Bazlen, uma figura de culto em Itália, tradutor, escritor praticamente sem obra e fundador da editora ADELPHI, do qual fiquei com uma curiosidade extrema de ler os seus SCRITTI.

Mas há outras preciosidades. Um texto provocador de Éric Marty sobre a infâmia, outro de Rita Figueiras sobre a comunicação política em tempos conturbados, uma das melhores leituras da Grande Exposição do Mundo Português interpretada na perspetiva do nacionalismo católico que conheço, a fabulosa entrada no mundo de Kara Walker (desenhos a tinta, grafite e aguarela, colagens e recortes), a espantosa fotografia de Jo Ractliffe sobre o mundo caótico de Luanda (porto, Bairro da Boavista e mercado do Roque Santeiro), um excelente artigo de Jacques Lévy sobre o urbanismo como ato de mediação (que tanto me recorda algumas conversas com o Nuno Portas e o Álvaro Domingues) e o sempre desconcertante Gonçalo M. Tavares nas suas Máquinas Humanas, parte 3.

Há mais mas estes chegam para tirar o fôlego a qualquer um.

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