quinta-feira, 15 de julho de 2021

DE GAULLE

 


(Terminou ontem na RTP 2 uma magnífica série sobre a vida do General de Gaulle, preciosa para entender os efeitos da Segunda Guerra Mundial na Europa e sobretudo para compreender as bases em que o modelo social europeu, neste caso do Francês, foi construído. Não só as bases institucionais mas também as personalidades que o tornaram possível. Para mim a série é uma oportunidade rara para situar não só a personalidade de De Gaulle desde a sua posição no exílio em Londres até à sua saída de cena com a derrota no referendo pós-Maio de 68 e após uma grande vitória eleitoral após esses acontecimentos, mas muito principalmente uma série de figuras fascinantes da vida política francesa...)

É de facto impossível ficar indiferente à espessura histórica e política de um conjunto de personalidades que acompanharam o crescimento do gaullismo. Como, por exemplo, Jean Moulin líder da resistência a quem De Gaulle tinha uma especial veneração e que foi posteriormente assassinado, André Malraux (uma presença de rara força na série), Olivier Guichard que ainda conheci nas minhas atividades da cooperação inter-regional como líder da região de Pays de la Loire, Georges Pompidou, Michel Debré, Couve de Murville e já mais para o fim Giscard D’Estaing que se opôs com êxito a De Gaulle no referendo que ditou o seu desaparecimento de cena e também o início político de Miterrand a quem De Gaulle venceu em Presidenciais.

É verdade que eram outros tempos e a experiência da guerra e do exílio e da luta contra o regime de Vichy representaram uma força única de maturação que nos nossos tempos só os desafios da pandemia serão capazes de assumir a mesma influência. Mas por aquelas figuras, onde a intriga palaciana se passeava com o quase ódio de De Gaulle a essa forma de fazer política, perspassava uma espessura e uma grandeza nas virtudes e nos vícios que é agora praticamente impossível reencontrar. E isso explica os problemas de afirmação da própria França, como se o desaparecimento das memórias da Guerra e da Resistência tivesse feito desaparecer também a grandeza dos homens e das mulheres.

Para comemorar o fim da série, nada melhor do que aproveitar o sempre oportuno Brad DeLong que num destes dias nos recordou uma das alocuções de De Gaulle a partir de Londres convidando a França livre a juntar-se-lhe no combate, que também era uma forma de rejeitar a submissão do governo de Vichy. Tantos anos passados e aquelas palavras fortes e singelas do General ainda causam arrepios nos mais sensíveis:

Estou a falar-vos de honra! A França está obviamente comprometida a não depor as suas armas até que os seus aliados concordem com isso. Enquanto os nossos aliados continuarem a combater, o nosso governo não tem o direito de capitular. O Governo Polaco, o Governo Norueguês, o Governo belga, o Governo Holandês, assim como o do Luxemburgo, embora expulsos dos sejus próprios países, compreenderam o seu dever.

Apelo ao vosso senso comum. É absurdo considerar que o combate terminou. Sim fomos fortemente derrotados. Um mau sistema militar, erros cometidos na condução das operações, o espírito de abandono do governo tudo isso nos fez perder a Batalha de França. Mas ainda temos um grande Império, uma frota intacta, muito ouro. Ainda temos aliados com imensos recursos que dominam os oceanos. Ainda temos o potencial gigantesco da indústria Americana. As mesmas condições de Guerra que nos conduziram à derrota com cerca de 5.000 aviões e 6.000 tanques podem, amanhã, levar-nos à vitória com 20.000 tanques e 20.000 aviões.

Estou a falar-vos sobre o interesse superior da nossa Nação. Porque esta Guerra não é uma Guerra entre a França e a Alemanha que possa ser decidida por uma batalha. Ninguém pode prever se os países que assumiram uma posição neutral manterão amanhã essa posição, nem podemos prever se os aliados da Alemanha permanecerão para sempre como seus aliados. Se as forças da Liberdade prevalecerem finalmente sobre as da escravatura, o que seria do destino de uma França submetida ao inimigo?

Honra, senso comum e o interesse superior da Nação comandam todos os Franceses livres que continuam a combater estejam onde estejam e sempre que o possam fazer.

Eu, General de Gaulle, estou a começar essa tarefa aqui em Inglaterra.

Convido todos os soldados Franceses do Exército, da Marinha e da Força Aérea, convido todos os engenheiros e trabalhadores especializados em armamento que estejam em solo britânico ou que aqui posam chegar a juntar-se-me.

Convido todos os líderes, soldados, marinheiros, pilotos do Exército, da Marinha e da Força Aérea Francesa, onde quer que estejam, a entrar em contacto comigo.

Convido todos os Franceses que querem permanecer livres a escutar-me e a seguir-me. Vida longa para uma França livre e independente”.

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