segunda-feira, 19 de julho de 2021

DO NÃO PAÍS DAS MARAVILHAS

As Jornadas Parlamentares do Partido Socialista ocorreram na semana finda em Caminha, talvez para também darem uma forcinha ao equívoco autarca local (Miguel Alves). Cumpriram uma das suas possíveis missões, a de procurar unir as hostes e de as animar, mas não aquela outra que lhes deveria caber de serem mais uma espécie de momento de formação de quadros e combate à indigência reinante do que de mera e frequentemente rasteira propaganda política.

 

E não faltaram as tão luso-portuguesas promessas de que vamos ser os melhores a executar o PRR — aliás, e sintomaticamente, o ministro do Planeamento reforçou essa postura contabilístico-executora ao anunciar em paralelo que não deixaremos ficar nada por gastar e que já executamos metade do planeado para este ano —, para fazer o quê e chegar aonde isso é mais complicado e logo se verá (apesar de o mesmo Nelson de Souza ter anunciado, com honras de chamada de capa na “Visão”, que já está aberta a possibilidade de financiamento à mudança de portas e janelas de casa).




(R. Reimão e Aníbal F, “Elias O Sem Abrigo”http://www.jn.pt)

 

A líder parlamentar, Ana Catarina Mendes, ainda ensaiou uma resposta algo mais consistente nesta direção, mas uma incorrigível e vulgar lógica estatista está entranhada nestes dirigentes socialistas que pararam ideologicamente no século XX: sublinhe-se, desde logo, a afirmação peregrina de que “o papel fundamental do PRR é o combate à bolsa de exclusão e pobreza que ainda hoje existe em Portugal” — porque, sem prejuízo das nossas múltiplas dimensões sociais estruturalmente lacunares (e da necessidade de as atalhar o mais possível, trate-se da exclusão social e pobreza, do apoio à infância, dos estrangulamentos na habitação, dos problemas dos jovens recém-licenciados ou de qualquer outro dos passivos que visivelmente ostentamos), o espírito subjacente ao PRR sempre foi orientado por um alcance estratégico, i.e., virado para uma transformação essencial das condições nacionais de criação de riqueza; porque a “melhoria significativa dos salários dos portugueses”, sendo obviamente um desiderato louvável, não ocorrerá sustentadamente fora de um tal processo de consolidação e upgrade dessa mesma criação de riqueza; e porque, finalmente, “uma política fiscal para a classe média” — a adesão a uma ideia de respostas para a classe média é poderosa e fica sempre bem no pacote das grandes parangonas declarativas) — não é evidentemente deste campeonato, além de que exigiria antes de mais uma política económica e financeira com sentido e capaz de integrar coerentemente a componente fiscal no seu seio.

 

Era talvez isto mesmo que alguns críticos queriam significar quando vieram a terreiro defender que havia pouco de empresarial no PRR (e muito de listagem de necessidades assacáveis a políticas públicas até agora deficientes, seja por razões de incompetência fundamental na sua prossecução seja por razões de natureza financeira pura e dura). A social-democracia (de que o PS detém ainda o estatuto de maior expoente em Portugal) carece urgentemente de uma mudança de mindset se pretender evitar uma crescente e inevitável marginalidade de representação (veja-se a sua significativa ausência nos maioria dos quadros políticos dominantes à escala europeia) — o que pressupõe mais trabalho e menos preguiça, mais criatividade e menos clichés, mais humildade e capacidade de ouvir e menos arrogância e triunfalismo, mais ligação à realidade e conhecimento efetivo da mesma e menos circuitos autocentrados e fechados a estranhos à família. Estarei provavelmente enganado, mas todos os sinais profundos a que vou acedendo e que me são dados recolher — daqueles que começam por ser largamente impercetíveis até que conquistam um verdadeiro espaço de afirmação na sociedade — apontam no sentido da crescente improcedência da ideia que pairava naquele confiante fórum reunido no Alto Minho: “arriscamo-nos a ser o futuro do país durante muito tempo”; veja-se, nem por acaso, a perda de popularidade registada por António Costa numa sondagem ontem divulgada.


Sem comentários:

Enviar um comentário