domingo, 17 de julho de 2016

O FÁCIES DO MINISTRO




(Quem não quiser jogar o jogo da imagem e cada um está no seu inalienável direito de não o querer, tem de ser coerente com tal posição, o que não é sempre o caso)

Muito sinceramente estava a estranhar que ninguém o tivesse utilizado como matéria jornalística ou de comentário. Eu próprio já o tinha referenciado como algo a discutir, mas algum pudor na exploração desse tipo de matéria-informação fez-me adiar sistematicamente essa possibilidade. Mas agora que o jornalista Manuel Carvalho publicou um contundente artigo sobre o facto, está quebrado o princípio da primeira vez e acho-me com o direito de o comentar.

Primeiro, uma declaração de conflito de interesses. Não conheço pessoalmente Mário Centeno, o ministro das Finanças do governo de António Costa. Nunca com ele trabalhei ou tive qualquer relação profissional. Tenho aliás muita admiração académica pela sua produção na economia do trabalho e considero-o o universitário que melhor conhece e tem trabalhado a segmentação do mercado de trabalho em Portugal. Por outro lado, já aqui referi que não me parece o melhor perfil possível para o lugar de ministro das Finanças, aliás na linha do que se tornou obsessão em alguns dos meus posts, ou seja no enorme vazio que se verifica no universo PS em termos de personalidades e vocações para exercer tal cargo. Depois, para desgraça do atual ministro, não me parece que o Secretário de Estado Mourinho Félix represente a tal barreira protetora que qualquer ministro das Finanças necessita, que mais parece incendiar novos fogos do que contribuir para apagar os já declarados. Depois e em sua defesa, Centeno teve de aplicar uma combinação de políticas que não era seguramente a sua para dar corpo ao acordo parlamentar à esquerda, o desvirtuou em grande medida o programa cuja elaboração ele próprio coordenara. Por conseguinte, o contexto em que Mário Centeno se teve de fazer à vida enquanto ministro não se deseja ao nosso inimigo nº1 e isso bastaria para reformatar as nossas expectativas.

Como todos sabemos, há ministros que se abatem ou menorizam pela palavra, seja ela descontrolada e impensada ou tímida e carenciada de tempo de resposta e clareza. Não me parece ser esse o caso de Mário Centeno. Ele domina relativamente o que quer dizer, mesmo que seja por vezes inexpressivo e monótono. Mas não é por aí que a sua posição seja debilitada. Num tempo da política em que a imagem se sobrepõe ao texto, Centeno, particularmente nas reuniões com os seus congéneres europeus, mostra um fácies seguramente dissonante do que nós dele conhecemos enquanto universitário e investigador, clarividente, rigoroso, não receando os resultados politicamente incómodos da sua própria investigação. De facto, sobretudo nas reuniões do Euro grupo e do Ecofin, Centeno parece frequentemente aquele adolescente que tem de ultrapassar as barreiras do seu primeiro encontro social, gerando um sorriso-esgar que na sua postura é seguramente um antídoto contra a sua timidez e pouco à vontade. O artigo de Manuel Carvalho é talvez injusto e ofensivo, pois usa essa mesma observação que já me saltara aos olhos para daí deduzir subserviência relativamente aos seus colegas do Ecofin, para tragédia nossa num momento em que não se pediam sorrisinhos de circunstância, mas uma posição clara e firme. Fosse António Costa a entrar com o cachecol da seleção ao pescoço e ninguém se lembraria de associar tal postura ao que Manuel Carvalho expressou. Mas há imagens que ficam para sempre nas nossas memórias de voyeurs políticos, tal como a de Vítor Gaspar baixando-se para saudar Schäuble na sua cadeira de rodas. E, neste caso, por mais voltas que o mundo dê, não será o artigo de Manuel Carvalho que será lembrado, mas antes as imagens do rosto de Centeno. É terrível, é injusto, não é disto que a verdadeira política se deveria alimentar, saudavelmente. Também me parece. Mas quem não quer ser lobo, ou melhor neste caso, quem não quer dar mostras de cordeirinho indefeso, não lhe veste a pele, ou seja tal sorriso.

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