quinta-feira, 11 de outubro de 2018

BE SOCIAL WITHOUT TURNING RED



(O populismo de extrema-direita está a revelar-se camaleónico, com mutações a ter em conta no reposicionamento político à esquerda e na direita liberal. Breve nota do que a AfD – Alternative für Deutschland está a protagonizar na Alemanha na antecâmara de duas semanas eleitorais de grande alcance para a situação política alemã)

O populismo de extrema-direita, de raiz fascizante, xenófoba e nacionalista quanto baste, começou há largo tempo a mostrar as garras, a sair do armário com desplante e, o que é mais trágico, a explorar habilmente as margens de manobra que a própria democracia lhe concede. Não existe propriamente uma metateoria do populismo emergente, tão diversificadas e mutantes são as suas manifestações. O que sabemos é que, perigosamente, ele começa a manifestar-se praticamente por toda a Europa, de este a oeste, de norte a sul, salvo neste paraíso à borda do mar plantado, salvo as excrescências futebolísticas do fenómeno que são do piorio. Veja-se o despudorado aparecimento da extrema-direita em Espanha com saída do PP a protagonizar essa tendência, o que mostra bem como o PP foi durante longo tempo um tampão significativo para essas tensões da Espanha mais retrógrada e troglodita.

A complexidade do fenómeno não é, entretanto, apenas determinada pelas diversidades “nacionais” com que ele se apresenta na cena política. Deve-se também ao facto de estarmos perante fenómenos muito dinâmicos, revelando uma forte capacidade de adaptação às diferentes formas de interação e de teste das reações dos eleitorados. Quer isto significar que a direita liberal ou conservadora e a esquerda, quaisquer que sejam os seus matizes de casta e pensamento, que mais tarde ou mais cedo terão de unir-se para barrar o caminho à sua própria destruição, enfrentam um inimigo mutante. Assim, não só têm evidenciado imensa dificuldade em se posicionar face à emergência política do populismo, como, por maioria de razão, a sua capacidade de entender as mutações do inimigo são gritantes.

Michael Brӧning da Fundação Friedrich-Ebert Stiftung, uma espécie de gabinete de estudos do SPD alemão, oferece-nos no Project Syndicate (link aqui) uma valiosíssima peça para entender as mutações mais recentes da AfD alemã, que ameaça transformar o xadrez político alemão em algo de explosivo, pelo menos do ponto de vista do respeito pelos compromissos alemães para com a União Europeia. Para lá de todas as analogias possíveis com o advento do nacional-socialismo alemão, nem sempre utilizadas com o rigor e cautela necessários, a verdade é que a AfD ameaça disputar diretamente o palco da decisão política na Alemanha. As semanas seguintes com eleições nos estados da Baviera e do Hesse trazem a ameaça da AfD deixar de ser o produto das insatisfações do leste alemão para poder adquirir uma outra expressão.

A análise de Brӧning põe em evidência a transformação da AfD de um partido criado sobretudo na influência de alguns universitários da direita alemã, de matriz essencialmente liberal (mais propriamente neoliberal) e eurocética. Na transformação entretanto operada, tem emergido de forma clara uma matriz social, com bandeiras eleitorais focadas no aumento de pensões, na melhoria da cobertura de saúde em áreas rurais e uma denúncia das rendas elevadas. Ou seja, um modelo de justiça social do tipo “be social without turning red”, como em expressão feliz Brӧning assinala. Há aqui uma tendência curiosa. A necessidade do populismo fascizante se afirmar por via eleitoral provoca na prática um efeito de evolução adaptativa que pode ser apenas instrumental para penetrar o eleitorado mais descontente. Não interessa se temos um falso mutante ou um mutante verdadeiro. Mas o que na prática temos é uma ameaça dinâmica para a esquerda social-democrata e para a direita liberal ou mais conservadora. O facto da extrema-direita cavalgar os temas da justiça social ainda perturba mais os discursos e as propostas de alternativa de barragem ao fenómeno.

Atravessamos tempos de grande unidade e não de exacerbação de diferenças. Palavra e discursos claros sem rodriguinhos ou devaneios, como por exemplo o da crónica de Francisco Assis no Público (link aqui), de cujas ideias me tenho aproximado nos últimos tempos, sobre o canalha Bolsonaro. Há um aspeto da crónica de Assis que toca profundamente este blogue, que é o do necessário pronunciamento de Fernando Henrique Cardoso sobre os riscos que Bolsonaro coloca à democracia brasileira. Seria uma enorme frustração que FHC não se pronunciasse e não utilizasse a sua Voz de influência na sociedade brasileira. Por mais patifarias que o PT tenha perpetrado ou feito vista grossa sobre as mesmas, não acredito em dilúvios redentores, ou seja não acredito em recuos civilizacionais para castigar infratores. A democracia tem armas para o fazer, por mais emprenhada que esteja pela corrupção.

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