quarta-feira, 24 de outubro de 2018

CONFUSÕES DESNECESSÁRIAS VERSUS CONFUSÕES ESTRUTURAIS



(Face à aproximação do ano eleitoral, com as Europeias a transcenderem a mera questão nacional para se transformar num imperativo verdadeiramente europeu, começa a perceber-se alguma agitação miudinha no seio do Governo e parlamentares do PS. Nos tempos mais recentes, a referida agitação miudinha alimenta-se por agora de confusões de dois tipos: estruturais a exigirem soluções de fundo e desnecessárias que requerem apenas algum juízo na governação.)

A agitação miudinha pré-eleitoral é comum, faz parte das regras do jogo democrático e das possíveis alternâncias que uns disputam e outros aspiram a evitar. O problema agrava-se quando essa agitação pré-eleitoral é majorada por algumas confusões para as quais a resposta depende da natureza das mesmas.

Comecemos por uma confusão gerada por algo de preocupante e estrutural. O caso de Tancos parece-me ser um caso paradigmático desse tipo de confusão. Para além da falta de autoridade do ex-ministro Azeredo Lopes, que vi dois dias depois da saída do governo, despreocupado e liberto numa grande superfície de materiais de construção em Vila Nova de Gaia, o caso de Tancos encerra a perigosa evidência de que as Forças Armadas são tudo menos um corpo coeso. Não compro a ideia de que o desgoverno que parece irradiar do caso de Tancos seja uma consequência direta e imediata da compressão e parcimónia orçamentais a que as Forças Armadas foram sujeitas no período da Troika e no pós Troika. Não é minha intenção branquear esses períodos. Mas o desgoverno a que me referi é já sintoma de degenerescência de comportamentos e de valores, não entendo muito bem o que os serviços de informação da República andam a fazer neste momento. Uma perigosa dualidade parece instalada: profissionalismo e rigor em missões internacionais valiosas para a imagem do país e desgoverno a nível interno, com situações a lembrarem a guerra do Solnado e muito corporativismo. Temos por isso agitação miudinha agravada por algo de estrutural, que começa por algo de básico, que é o País nunca ter discutido politicamente que Forças Armadas pretendem manter e valorizar. É tema forte para uma próxima legislatura. Como cidadão gostaria de votar em 2019 com estes temas na agenda.

Olhemos agora para um exemplo de confusão desnecessária, alimentadora de agitação miudinha controlável com mais juízo na governação. Convém não esquecer e desvalorizar a ideia de que em tempos de populismo galopante (e Marcelo não dá para barrar tudo), quanto mais claro e transparente for o discurso governamental melhor. Neste contexto, gostaria de saber qual o interesse e vantagem de, aparentemente de forma deliberada e não por uma falha de coerência entre diferentes quadros, a formulação do Orçamento conter tanta matéria propícia a chicana politica e até a ressurgimentos discursivos de uma oposição embrulhada na sua própria incapacidade. A confusão em torno do défice que estrutura o Orçamento e do tratamento dado às cativações não beneficia ninguém. É o oposto de um discurso governamental claro e transparente, o tipo de discurso que as democracias precisam no difícil momento que atravessamos. Mário Centeno tem que perceber que não fala apenas para deputados, por mais iletrados e ignorantes que alguns possam ser nas matérias que discutem. A discussão do Orçamento tem uma grande visibilidade no país, aliás na medida da relevância desproporcionada que o Orçamento tem face à discussão de temas mais estratégicos. Por isso, a confusão gerada em torno do défice com a UTAO e em certa medida a Comissão Europeia não é benéfica para ninguém, embora pareça que o ministro Centeno adora chamar burros aos deputados. Anda toda a gente preocupada, ou pelo finge que anda, com o alheamento dos cidadãos da política quotidiana. A contradição está em que se trata de caldo que políticos e governantes gostam de cozinhar a todo o momento.

Tempo para afrontamento das questões efetivamente estruturais e mais juízo na governação é o que se pede nesta altura de agitação miudinha. E atenção às Europeias dada a sua relevância política.

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