terça-feira, 23 de outubro de 2018

LA CENERENTOLA

(https://www.youtube.com/watch?v=X-kRgs3H7so)


(Cecília Bartoli, a minha mezzosoprano de coração, passou por Madrid para cantar uma das suas preciosidades, a Cenerentola de Rossini, em que ela é uma especialista. Mas o que me interessou foi a sua convicta afirmação ao El País de que num povo de emigração como o italiano ter um Salvini pela frente, xenófobo quanto baste, é uma trágica aberração da doença humana.)

Houve tempos em que tinha vida e força para frequentar com alguma regularidade a Gulbenkian musical (nestes últimos tempos só para momentos excecionais como o será ver finalmente em palco a minha diva do piano Martha Argerich, já tenho bilhete). Um dos momentos mais espantosos dessa era foi ouvir Cecília Bartoli cantar naquele auditório, emergindo como um vulcão com um vestido vermelho que nunca mais esquecerei. O rigor e seriedade musical de Cecília são ímpares nos nossos tempos, tal é o trabalho artesanal e de investigação que ela sempre realiza para redescobrir e interpretar raridades musicais de outros tempos, concedendo-lhe aquele talento divino que é o conjunto da sua voz e presença em palco. O seu Vivaldi representa tudo isso e a todo o momento aguçámos o apetite por novas descobertas.

A Angelina de Rossini está indissociavelmente ligada ao sentido da carreira de Cecília. Singela e sóbria como sempre, mas determinada até ao limite, Cecília terá por certo encantado Madrid. Cá por mim fico com o fecho da sua entrevista ao El País (link aqui), assinalando a sua passagem:

Quando vejo o tratamento que alguns querem dar aos imigrantes, recordo-me da minha avó. Foi ela quem me contou desde pequena que nós italianos fomos um povo emigrante durante a primeira metade do século XX. Por isso, se juntarmos italianos e os seus descendentes no exterior são muito mais do que os vivem cá dentro. Como os que chegam fugindo dos seus países para a Europa, também nós escapámos à fome, ao conflito e à miséria. A política real, de fundo, deve fazer-se nos lugares de onde brotam todas as razões que obrigam qualquer um a deixar o seu país para os evitar.”

Bastaria integrar a história nas nossas cogitações para mudar radicalmente perspetivas. Mas a história real e não inventada parece não ser preocupação dos populistas xenófobos. Preferem construções falsas da mesma.

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