sábado, 5 de junho de 2021

UM CHOQUE DE REALIDADE

 

                                                    (The Economist)

(Bem sei que para muita gente a leitura semanal do Economist representa simbolicamente a sua adesão às virtudes do mercado, numa espécie de partilha de valores e de reconhecimento da competência da já histórica revista. Para mim não é essa a motivação que me conduziu à assinatura digital e em papel já há longo tempo. Desde sempre cultivei o que para muitos pode ser entendido por expiação ou sacrifício autoimposto, lidar com a competência de quem tem ideais com os quais não me identifico. Mas, mais do que isso, ler o Economist é garantir um permanente confronto com evidência que me ajuda a repensar as minhas próprias ideias.)

A expressão que melhor descreve a minha motivação na leitura do Economist é assim a de “choque com a realidade”.

E o material que hoje vos trago constitui de facto um choque bem pesado com a realidade europeia. Nos últimos tempos, se compararmos a União Europeia a um barco, a sua estabilidade deixa bastante a desejar, a navegação é problemática, a tripulação não se entende a não ser em momentos in extremis e o pior é que, sorrateiramente, há membros da tripulação não propriamente a saltar fora mas a ameaçar que o fazem e principalmente a fazer negócio por sua própria conta.

A geopolítica global está ao rubro e a pandemia limitou-se a revelar o que já estava em curso. O arremedo de política externa que a União Europeia tem vindo a construir reflete-se na sua inferioridade de posicionamento face a questões de geopolítica em que a Rússia e a China estejam envolvidas. Não quero ser mauzinho mas em relação a ambas as potências a posição da Alemanha é bastante dúbia e obviamente tende a enredar a posição da União a uma só voz.

De quando em vez, há um assomo de velho aristocrata que surge no ar, tal como sucedeu com a questão das vacinas, por vezes com posições desajeitadas porque não correspondem ao padrão do que era antes observado. E bastou a chegada de Biden e repor os EUA no seu devido lugar para perceber que isso de maior bloco económico é uma espécie de ficção pois corresponde a um grande barco que peca por falta de agilidade e um processo de tomada de decisão que arrasa os nervos de qualquer um.

 

Os valores que o Economist (link aqui) nos traz dão conta de uma perda de peso empresarial da Europa no mundo das cadeias de valor globais, particularmente grave porque em termos de rejuvenescimento dessa capacidade empresarial não estamos melhor. Tal como o Economist o assinala, a queda do peso empresarial da Europa deve ser compreendida no quadro do advento da economia chinesa (que muitos países europeus quiseram cavalgar), mas o contexto da geopolítica global é o mesmo e ainda assim isso não tem correspondência nos EUA.

Muitos dirão que o futuro da Europa não está nas Siemens e Airbus deste mundo mas num tecido de médias empresas que caracterizam bem o universo produtivo alemão. O que me parece é que a União está na fatídica posição do meio do court de ténis, em que nem avança para a rede com empresas de grande dimensão rivalizando com as congéneres americanas e chinesas, nem fortalece a sua posição no fundo do court com a organização do seu tecido de médias empresas (estas aliás bem grandes quando confrontadas com as nossas PME).

A ortodoxia liberal europeia que se apoderou dos destinos europeus com a complacência dos socialistas e sociais-democratas também eles deslumbrados pelo mercado adiou e inviabilizou sempre a ideia de uma política industrial para a Europa. Assistiu ao desmembramento de muito do potencial industrial europeu deslumbrada com a “offshorização” de muita da sua capacidade industrial.

E o que os números do Economist nos sugerem é que perante esta onda os trânsfugas e acelerados que gostam de fazer negócio por sua própria conta, do tipo sigam-me e depois vê-se, mesmo a Alemanha com o seu poderio industrial corre ela própria o risco de submergir neste mar encapelado.

É a isto que eu chamo de “choque de realidade” e vale bem o custo de uma assinatura anual.

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