sábado, 3 de dezembro de 2022

“PRECISO DE OUVIR UMA VOZ, JÁ NÃO DIGO RECEBER AQUELE ABRAÇO”

 

(Jornal Público)

(Perdidos e isolados em territórios que eleitoralmente pouco contam, a população envelhecida a quem as agruras da vida, quando não a prostram em qualquer doença incapacitante, as atiram pelo menos para um isolamento quase sempre com carências económicas expressivas, representa uma das mais dramáticas manifestações do inverno demográfico nacional. É verdade que nas grandes concentrações metropolitanas, o fenómeno do idoso isolado, a viver em edifícios degradados e sem perspetivas de reabilitação, por vezes sujeito a um cruel bullying imobiliário, com promotores pouco escrupulosos e ansiosos por libertar os edifícios de arrendatários com rendas congeladas, não é um fenómeno menos dramático. Com o paradoxo de estar isolado no seio da concentração demográfica, o fenómeno dos que morrem sem ninguém dar conta ou permanecem nas morgues ou hospitais esperando em vão alguém que reivindique o seu corpo para o enterrar decentemente talvez reúna melhores condições para ser mediatizado e alertar consciências. Mas a lei das probabilidades funciona muitas vezes. No seio da concentração populacional, é sempre mais elevada a chance de algum esquema de solidariedade de bairro conceder algum aconchego e ajuda aos idosos isolados. Pelo contrário, onde a rarefação da população no território veio para ficar durante muito tempo, essa probabilidade é mais baixa e por esse efeito a velha ideia de que a solidariedade rural é mais forte deixa de ter aplicação. Estar só com as imediações reduzidas ao abandono abrange muita gente. Por isso o artigo/reportagem do Público tem uma grande relevância e alcance cívico.

 

O isolamento inexorável de uma grande faixa de idosos nas zonas interiores do País é daquelas inevitabilidades que custa admitir, mas que a força das circunstâncias aconselharia a inscrever como uma prioridade da política pública municipal. Por um lado, estamos frequentemente a falar de pessoas arreigadas a um local, a uma história de vida de conluio com a terra e com uma casa, por mais debilitada que ela esteja. Quase sempre esse desejo de permanência cruza-se com evidentes carências económica, largamente inibidoras da procura de um refúgio na sede do concelho ou nas zonas mais centrais e ainda vividas de aldeias e freguesias. Muitos não estão dispostos a ser “encaixotados” num qualquer contentor social, por mais risonho que a sua imagem nos pareça. Por outro lado, sabemos que o prolongamento dessa situação está dependente do que a saúde trouxer a cada personagem. Por vezes, é a doença que quebra o vínculo e sabe-se lá depois que destino e instalação lhe estão reservados.

As visões otimistas sobre a reversão do isolamento destes territórios já foram mais intensas. A desproteção, vulnerabilidade e fragilidade destes territórios, que a tragédia dos incêndios florestais veio tornar mais notórias e visíveis para o público que só toma contacto com a realidade através da televisão, alterou profundamente as perceções sobre o que significa viver não só na baixa densidade rural, mas sobretudo na baixa densidade sem gente, pura e simplesmente. Conheço vários casos de gente e casais com alguma dose de alternatividade e coragem se instalaram nesses territórios, construíram casas em profunda comunhão com a natureza e com a sustentabilidade e que começam a fraquejar. Nuns casos porque a relação não aguentou esse isolamento. Noutros casos porque a educação dos filhos veio colocar novas questões éticas e decisões difíceis ao casal. Noutros casos ainda porque a própria perceção de quão difícil é viver sem a interação que só a concentração de pessoas pode assegurar e não me venham com o bálsamo do digital.

Algumas regiões, como foi o caso da Região Centro, colocaram no centro das suas estratégias regionais (profissionalmente tive alguma influência na disseminação dessa ideia) a prioridade de melhorar a resiliência desses territórios e combater a sua vulnerabilidade e fragilidade. Porém, quando se passou à programação e a velha mania dos programadores nacionais e comunitários os levou a apostarem como sempre na homogeneização das arquiteturas dos Programas (simplesmente por preguiça de burocratas e funcionários para quem a diferença é sempre entendida como razão de mais trabalho, coitados), percebeu-se que as Regiões foram de novo entregues à sua sorte. Por outras palavras, encontrem nas gavetas destes Programas lugar para apoiar essas estratégias de resiliência. Lamentável como sempre. Refira-se também que quando a ideia surgiu, também os territórios do litoral, mais densos e concentrados, se apressaram a reivindicar que também eles necessitavam de ações de promoção da resiliência e por isso careceriam também de apoio.

Tenho para mim que o fenómeno do isolamento tal como o artigo/reportagem do Público o trata e evidencia veio para ficar durante algum tempo, que não será seguramente curto. A única saída é os Municípios desses territórios devem operar uma grande transformação nos seus planos de intervenção: apostar tudo nas políticas de proximidade e estas políticas não se justificam apenas quando há gente. Uma boa política ambulatória pode ser uma excelente política de proximidade. Em simultâneo e na mesma equação de alocação dos seus recursos devem também perceber que há dimensões do seu desenvolvimento cujo racional de investimento já não é local e municipal, mas antes sub-regional ou mesmo regional. Aliás, como o famigerado caso do Centro de Congressos de Caminha veio mostrar e não precisava de ter sido assim, com aquela trajetória enviesada e cheia de pontos de interrogação. Focar recursos nas políticas de proximidade e participar ativamente na definição de racionais sub-regionais ou regionais é, em meu entender, um bom mote para um novo ciclo de políticas de desenvolvimento municipal e gestão autárquica. Se fosse candidato a autarca seria com um programa desse tipo que me candidataria, provavelmente sujeito ao fracasso. Ou, por outras palavras, as boas ideias quase nunca ganham eleições.

Para pensar e acompanhar as próximas autárquicas.

 

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