sexta-feira, 22 de abril de 2022

AS CADEIRAS VAZIAS

 

                          (em versão mais estilizada utilizada pelo Nuno Rogeiro no Twitter)

(Já em vários posts deixei aqui vincada a minha perplexidade, tristeza e repúdio pelo que me parece poder ser uma das hipocrisias políticas mais repugnantes dos últimos tempos. Assistir ao PCP a cavar em direto a sua própria sepultura, atraiçoando o seu próprio contributo para a conquista da liberdade em Portugal é de tal maneira perturbador que me vejo forçado a fixar em texto próprio e não misturado com outros olhares sobre a atualidade, sobretudo para memória futura, o meu repúdio. Esta recordatória é tanto mais importante quanto, como se sabe, sempre entendi a presença do PCP no plano interno como uma das razões para o relativo êxito da geringonça, estabilizando condições que, na sua ausência, veja-se o caso de Espanha, se traduzem no grau zero da governabilidade. Esta contradição entre as contradições do PCP relativas à economia mundial e à economia nacional sempre existiram e não são novidade. Mas como o próprio PCP sempre enunciou a magnitude dessas contradições importa e de que maneira. Ora, em meu entender, a magnitude dessas contradições no âmbito de uma contradição global, atingiu o ponto de rotura. Podemos estar a assistir em direto ao cavar de uma sepultura.

Não vou fazer aqui a exegese das coerências ou incoerências internas do PCP. Não tenho vivência do partido nem arcaboiço intelectual para o fazer. Mas julgo-me com informação, nível e diversidade de conhecimento suficientes para poder quase em simultâneo anotar a importância central do PCP no período de 2015 até à maioria absoluta do PS e a insustentabilidade do seu imobilismo e erros trágicos de interpretação do que hoje a Rússia significa.

No plano da política interna e num período em que era fundamental retomar a confiança os Portugueses abalada por uma desproporcionada política de austeridade, acéfala e contra-cíclica, o imobilismo ideológico do PCP significava estabilidade de acordos, confiança no teatro das negociações de sustentação de uma maioria parlamentar, numa palavra governabilidade. Esse poder estabilizador do PCP sempre coexistiu com a perceção de que a sua interpretação da geopolítica mundial estava anquilosada e desfasada dos tempos que correm. Sempre me perturbou a incapacidade do partido ler a evolução das condições históricas objetivas e concretas, renegando um dos princípios básicos do marxismo. Mas nesses cinco anos de maioria parlamentar de esquerda, não abundaram os eventos ou oportunidades de por a nu essas contradições de leitura. Percebia-se que o PCP desejaria ter apagado da história o desmantelamento e destruição da União Soviética e que a queda do muro de Berlim foi uma daquelas partidas da história que o partido bem dispensaria. O pretenso libertador de mancha na cabeça nunca gozou da afeição do partido, mas a história é o que é, por vezes tem demasiada força e mesmo os imobilismos mais rígidos têm de se adaptar à evolução das condições objetivas.

A invasão da Rússia na sequência de um ato tresloucado de um autocrata, que não se coibiu de criticar em público os grandes intérpretes da Revolução de 1917 pelas enormes autonomias que foram concebidas às diferentes Repúblicas, foi uma pancada demasiado forte para o referido imobilismo interpretativo.

E o que mais me choca e enoja nesta posição do PCP é a atitude de fazer de parvos de quem tem um conhecimento mínimo da história soviética e da sua decomposição até aos nossos dias, incluindo a conturbada história da Ucrânia, desde a mãe Kiev de todas as Rússias até Zelensky, passando pelos acontecimentos de 2014.

O PCP bem poderia estar ausente da sessão do Parlamento com a intervenção online de Zelensky. A liberdade democrática autorizaria esse comportamento. Teria um duro significado para o partido, obviamente. Mas estaria no seu direito de dar esse tiro no próprio pé. Mas o que é de facto um nojo é a explicação dada, a massa de areia que é atirada para os nossos olhos, como se não soubéssemos que a Ucrânia é tudo menos uma unidade homogénea do ponto de vista político e ideológico. A explicação que a deputada Paula Santos aceitou transmitir é uma mensagem trapaceira do mais reles e indigente que tenho ouvido e lido nos últimos tempos, sobretudo pelo insulto à inteligência e à cultura dos que são capazes de distinguir entre o essencial (um país é invadido impunemente por outro) e o acessório (a complexidade da sociedade ucraniana).

Esta incapacidade de ler nas decisões de Putin a mais ínfima das manifestações do mais puro autoritarismo e o mais completo desrespeito pelo princípio da autodeterminação dos povos eleva as contradições do PCP no plano do entendimento do mundo de hoje a um ponto de rotura. Quer isto significar que o dano provocado a propósito desta questão de política externa é desta vez de tal modo gritante que acabou a paciência para relevar as suas contradições no plano da política interna.

Assim, mais do que o simbólico das cadeias vazias é a mensagem que vem na legenda que equivale ao cavar da sepultura.

Não posso deixar de pensar na metáfora do respeito pelos velhos. Temos respeito pela sua dignidade, pela sua experiência e muitas vezes clarividência que nos ajudam a pensar o mundo … e a envelhecer. Porém, quanto eles perdem a sua própria dignidade e quando deixam de pertencer à própria realidade, pelo menos como a percebemos, o respeito acaba e começa uma interrogação de valores.

O PCP está ele próprio a contribuir determinantemente para que percamos o respeito que é devido à sua história. Não sei sinceramente o que se passa - um vazio profundo de liderança? Um embolorado sentido de coerência? Uma forma de autismo político? Ou ligações que desconhecemos à Rússia dos autocratas?

Qualquer que seja o motivo, cheira a morte anunciada. Uma maioria absoluta do PS permitirá ao PCP esconder muita coisa. Mas o choque frio com a realidade algum dia virá.

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