sábado, 31 de janeiro de 2026

INCONSISTÊNCIA INSTITUCIONAL

(cartoon: excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

A depressão Kristin – porque será que a maioria das catástrofes atmosféricas têm nomes de mulher? – bateu forte cá na Terrinha, especialmente na nossa zona Centro. O que aqui pretendo deixar lavrada é, e abstraindo da evidência das alterações climáticas e seus impactos crescentes, a nova demonstração de vulnerabilidade organizacional (política, associativa, empresarial e individual) e de pobreza (não há que recear o uso da palavra!) que o País continua recorrentemente a revelar, não parecendo capaz de retirar ensinamentos de umas ocorrências para outras nem de contrariar a emergência de fragilidades manifestas e quase primárias. Somos mesmo um caso de estudo em matéria de “inconsistência Institucional”!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

“MUITO MAIS PERIGOSO DO QUE UM POPULISTA, É UM POPULISTA NO MEIO DA PONTE”

 


(Ângela Silva, de quem importo o título deste post, assina no seu A Vida é Vil no Expresso on line uma das análises mais consistentes do ponto de situação do personagem André Ventura e da sua candidatura à Presidência da República que tenho encontrado na imprensa portuguesa. A ideia sugerida por Ângela Silva é que o facto da candidatura de Ventura ocultar objetivos que não se confundem com a hipótese de poder ser Presidente da República, acabaria necessariamente por despertar contradições a si próprio e aos seus apoiantes, fiéis da irmandade do Chega, ou semi-envergonhados que os há muitos, como foi possível confirmar através da incapacidade de indicação da orientação de voto em gente como o ridículo diretório do CDS, Melo e Núncio, e da hoje perturbada direita do Observador. A tentativa desesperada de Ventura, iniciada logo na noite eleitoral, de transformar o veredicto do dia 8 de fevereiro numa divisão de águas entre socialistas e não socialistas caiu com estrondo depois da sucessão de apoios a Seguro de diferentes famílias de democratas e das críticas violentas por exemplo de António Lobo Xavier à despudorada tentativa de reescrita da história do CDS perpetrada por Nuno Melo e Paulo Núncio, tal como já o fora a sua posição em relação ao 25 de novembro. Ventura é hoje alguém que não é capaz de manter firme o seu discurso pretensamente disruptivo e antissistema que guindou o Chega ao peso eleitoral que tem hoje no Parlamento. Este tipo de disrupção só consegue manter-se ativo quando passa a assumir as rédeas do poder e a poder concretizar uma multiplicidade de manobras antidemocráticas, como é hoje o caso para infelicidade do mundo de Donald Trump e da sua corte mais próxima, cada vez mais ancorada numa constelação de medidas fascistas. Mas, como diz Ângela Silva, se um populista é por definição imprevisível e catavento, ele é ainda mais perigoso quando está no meio da ponte como aspirante a faz tudo na política e sem ideia do rumo que quer tomar.)

Sabemos que bastará a Ventura uma determinada votação no dia 8, possibilitada quer pela não dramatização que António José Seguro colocou nesta segunda volta, quer pelo comboio de depressões que assolou o país, para ter retorno do investimento realizado nestas Presidenciais. O momento não é, pois, de complacência ou de imaginar que tudo está decidido. É antes de assegurar que Ventura tenha a menor votação possível para que o retorno do investimento não esteja assegurado.

Mas, em meu entender, esta segunda volta das Presidenciais não é em si clarificadora pela natureza do embate que está no terreno, é-o mais pela possibilidade que gerou de percebermos quem é que efetivamente na sociedade portuguesa está interessado em branquear Ventura e as suas diatribes mediáticas, como maestro das reações a multiplicar pela sua tropa nas redes sociais. Já percebemos que a direção do quase defunto CDS está nisso interessada, nem que para isso reescreva a história e a cartilha de valores democrata-cristãos que criou o partido. Vale o que vale, é minoritária nessa área política e houve gente prestigiada que se apressou a clarificar essa indevida apropriação. Mas não é essa a mais importante fonte de branqueamento de Ventura. A chamada direita alimentada pelo corpo ideológico consistente do Observador, essa sim, é a mais proativa nesse branqueamento. As razões são claras e muito cedo registei essa evidência nas minhas reflexões neste blogue. Essa direita é uma espécie de autor teatral que busca desesperadamente os seus atores para concretizar a peça que conceberam. Passos Coelho e a sua corte de jovens turcos esteve perto. Montenegro e os seus mais próximos foram hipótese, mas cedo passaram à história. Ventura e o Chega não são propriamente a alternativa desejada, mas têm um papel instrumental de abertura de caminho, de perturbação e disrupção que ajudará aos objetivos de preparação de uma nova alternativa, sobretudo se o PSD ceder e for engolido pela onda.

O que se vai lendo nos escritos do Observador é uma objetiva dificuldade de afastamento da mensagem de Ventura, misturada com a “foficação” (perdoem-me a inventiva linguística) e branqueamento do candidato Ventura. Mas o que efetivamente trocou as voltas à “direita Observador” foi o aparecimento com o seu estilo próprio de António José Seguro na segunda volta e mais votado no primeiro round. Com esta é que os cronistas não contavam. A fantasia do socialismo versus não socialismo esboroou-se totalmente. Não irão certamente desistir e novos episódios serão acrescentados à trama. Também eles, como Ventura, estão no meio da ponte.

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

APOIOS A SEGURO

 

Está prestes a começar a campanha eleitoral da segunda volta das Presidenciais. Que ou muito me engano, ou não terá grande história para ser contada. Convém, no entanto, ir dando baixa das posições adotadas pelos notáveis da nossa praça, especialmente porque está em causa “o sistema” (que, no caso, corresponde ao lado bom) versus o desejo da sua destruição por populismos erráticos e extremistas. Depois de alguns a quem já me referi noutro post, ontem registei com agrado as posições de Rui Rio e de alguns “históricos” do CDS (como Lobo Xavier, Pires de Lima, Diogo Feio e Mendes da Silva, muito críticos em relação à sua direção e, designadamente, ao matarruanismo reacionário – as palavras são minhas – de Paulo Núncio). Ao invés, tivemos o ADN – de que Joana Amaral Dias se tem servido para a sua absurda cruzada de notoriedade pessoal e partido esse que também a tem utilizado em proveito próprio (proveito que tem sido assaz diminuto, diga-se de passagem) – a declarar apoio a Ventura e a assim forçar necessariamente a psicóloga clínica e comentadora a vir a terreiro para esclarecer onde se situa se não quiser ser confundida com uma tomada de posição tão contraditória com a sua prática de intervenção política mais reconhecida. Uma palavra ainda quanto aos nossos queridos governantes, vários deles certamente bastante contrariados pela obrigatoriedade de um silêncio ensurdecedor para não comprometer ainda mais o seu primeiro-ministro, e outra dirigida a um Cotrim que chegou a parecer o candidato mais imaginativo e declarativamente transformador mas que acabou afetado pela incandescência da sua ambição e por acusações a que não soube responder com transparência e tranquilidade. Por fim, saliente-se que ainda se aguardam mais algumas palavrinhas a virem (espera-se) de pessoas decentes e respeitadas que não podem nem devem ficar caladas.


(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

EPOPEIA A DOIS

 



(As alegrias e as agruras que o futebol me proporciona gosto de as viver sozinho, em frente ao televisor ou no PC, já que as idas aos estádios já ficaram lá para trás, muito lá para trás. Mas, de quando em vez, há vitórias e acontecimentos tão marcantes que mantê-los no recato pessoal equivaleria a uma enorme privação. A noite futebolística de ontem, e creio que poderá ser estendida à de hoje, é daquelas que justifica uma contida referência neste espaço de reflexão, para memória futura, já que pela minha parte reconheço que o SLB tem sido mais memória do que presente. Comparando o que se passou na Luz e em San Mamés, Bilbao, devo reconhecer que, embora de modo menos espetacular, a passagem do Sporting no grupo dos oito primeiros classificados nesta fase da Liga dos Campeões, ombreando com um conjunto de fortes tubarões, é um feito bem mais importante e tremendo do que o alcançado no último minuto pelo SLB frente ao Real Madrid. Podemos, por vezes, criticar a arrogância típica da Linha de Frederico Varandas, mas este resultado não pode deixar de ser compreendido à luz de uma profunda mudança no modelo de gestão do clube. O que se passou na Luz é a fiel representação da vertigem em que o espetáculo do futebol pode transformar-se. Com uma exibição convincente e ao nível de todo o peso da memória passada de outras conquistas, apesar dos momentos de vitória por 3-1 e por 3-2 o Benfica oscilou entre os 26º e o 24ª lugar da classificação virtual, pois não dependia apenas de si, mas de outros resultados. Já em período de descontos e com o 24º lugar aparentemente garantido na classificação virtual que dava a passagem ao play-off, Mourinho faz duas substituições de contenção, pois aparentemente a passagem estava garantida. Mas um novo golo no exterior colocou de novo o SLB no 25º lugar atrás do Marselha. Era preciso arriscar tudo e os astros em convergência, no meio daquela chuva infernal, deram um livre com possível transporte da bola para a área. O ucraniano e guarda-redes Trubin, sem saber muito bem a vertigem em que a classificação estava enredada, subiu para a área e entre os centrais do Real Madrid cabeceou vitoriosamente para o golo, perante um impotente Courtois, também ele mergulhado na vertigem a que me refiro. Épico ou trágico, consoante as perspetivas, mas sobretudo uma vitória emocional das pesadas e uma organização irrepreensível da equipa alcançada por Mourinho, ele próprio a descobrir motivações sabe-se lá a partir de quê, que só teve dois momentos de falha – a não marcação a Mbappé nos seus dois golos que amenizaram a derrota do Real. Seguramente que perante uma equipa que defendesse melhor do que o Real a noite de ontem teria sido de frustração e não de glória épica. Para o futuro, ficará sempre a comparação entre o feito mais organizado do Sporting, partilhando o grupo dos primeiros oito classificados, e o produto combinado da emoção e da memória do passado na noite mágica da Luz. Talvez preferisse o valor da organização, mas ninguém resiste a uma noite como a da Luz, mesmo o mais empedernido dos reflexivos como eu.)

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

FERNANDO MAMEDE

 


(Talvez tenha sido no passado injusto, quando em alguns dos meus escritos e intervenções públicas me socorria do que se designava de “síndroma de Fernando Mamede” para abordar um dos pressupostos estados de ânimo dos portugueses, traduzido na sua incapacidade de vencer quando reuniam todas as condições para o concretizar. Num tempo em que as questões psicológicas dos atletas era um tabu, para a imprensa, para os técnicos e para os próprios, o medo de vencer e das dificuldades sobrepôs-se a um potencial notável que o levou durante alguns anos a deter o recorde mundial dos 10.000 metros, mas a gerar uma espécie de fobia à conquista de medalhas. O próprio Fernando Mamede confessou mais tarde que se então tivesse beneficiado de apoio psicológico teria chegado muito mais longe do que chegou. O velho e sábio Moniz Pereira, seu treinador e que Mamede considerava um segundo Pai, dizia o óbvio, retirem-lhe a exigência de ganhar medalhas e verão a excelência de atleta que ele é. Se compararmos hoje as condições oferecidas aos atletas e o contexto em que gente como Mamede, Carlos Lopes, Rosa Mouta ou Aurora Cunha corriam inicialmente, rapidamente compreendemos que aquela gente era heroica, com ou sem o medo de vencer. Por isso, agora que enfrentando problemas cardíacos Fernando Mamede nos deixou, depois de um regresso ás origens simples de Beja, a combinação de um enorme talento com a vulnerabilidade classifica-o como alguém que faz parte da história cimeira do atletismo em Portugal. Devemos, por isso, em homenagem à sua memória, dissociá-lo da ideia de perdedor e aqui estou a tentar redimir-me do facto de, por mais de uma vez, ter recorrido ao síndroma para caracterizar outras coisas. Recordá-lo como um grande atleta que não foi devidamente tratado à depressão que o marcava é a melhor maneira de lhe devolver a áurea que merece, pois ser um Grande Atleta naquelas condições de vulnerabilidade não é para muitos.)