terça-feira, 6 de janeiro de 2026
QUEM SOBREVIVERÁ AO 18 DE JANEIRO? (II)
O DELCY-PROTETORADO AMERICANO NA VENEZUELA
(Lamento, mas a matéria está a transformar-se em obsessão, impregnando todas as antecipações possíveis em matéria de geopolítica. No meio de toda esta desordem que o Grande Organizador da Política Feita Negócio precipitou, o que me deu mais gozo, um pouco sádico, admito, foi a desorientação da barata tonta em que a direita espanhola do PP se transformou. São conhecidos os negócios menos claros do PSOE com o regime de Maduro e lembro-me especialmente de um episódio no aeroporto de Barajas, em que a agora presidente interina Delcy Rodriguez se viu envolvida com umas malas de conteúdo estranho, disseram as más-línguas locais que se tratava de lingotes de ouro. É também conhecido que Zapatero se assumiu sempre como o negociador preferencial das autoridades venezuelanas, o que sugere confiança e proximidade com o regime de Maduro. Foi neste contexto que Nuñez Feijoo salivou de contente, antecipando que o golpe de Trump iria destapar uma Caixa de Pandora, acossando ainda mais Pedro Sánchez, depenando-o até ao tutano das suas inúmeras contradições. O problema é que Trump e Rubio cedo deram conta ao mundo que o que movia o ataque era o cheiro do petróleo e não propriamente a purificação democrática da Venezuela. Perante a incredulidade da direita espanhola que acolheu solícita o asilo de Edmundo González em Madrid, vencedor de facto das últimas eleições na Venezuela e alter-ego de Maria Corina Machado, Trump e Rubio afastaram secamente a hipótese de Corina Machado assumir o poder, com duas desculpas esfarrapadas: Rubio alertou para que Corina Machado estava fora do país, como se não tivessem sido os Serviços Secretos americanos a viabilizar a sua fuga e a sua deslocação a Oslo; o próprio Trump foi mais longe, referindo que Corina não tinha nem o apoio nem o respeito do país. Feijoo engoliu em seco, pois a escolhida para a entretanto combinada transição para o protetorado foi precisamente a senhora das malas em Barajas, Delcy Rodriguez. O Grande Organizador da Política Feita Negócio não brinca em serviço e percebe-se que Delcy quis apenas salvar a pele e o pescoço, negociando o protetorado de acesso ao petróleo venezuelano.)
Claro que a barata tonta da direita do PP tem em parte o seu equivalente no fofinho comunicado do nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, que teria à sua disposição um mar de alternativas para marcar a defesa e proteção da vasta comunidade portuguesa na Venezuela diferente de transformar o golpe de Trump numa manifestação válida da defesa da democracia.
A história está cheia de processos penosos em que a fraqueza perante a força teve consequências trágicas. É simplesmente de arrepiar a fraqueza com que o mundo se prepara para enfrentar o Grande Organizador da Política Feita Negócio.
Quanto tempo vai durar o protetorado americano na Venezuela? O Nobel de Corina Machado parece pairar na má vontade de Trump relativamente à democrata venezuelana e é patético o gesto da premiada em querer oferecer o seu galardão ao próprio Trump.
Pior do que isso, quanto mais tempo durar o protetorado e o saque petrolífero mais forte se torna a hipótese de uma guerra civil na Venezuela.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
AMORIM E GYOKERES OU AS DIFICULDADES DO SALTO QUÂNTICO
(Sinto a premente necessidade de arejar a mente e deixar de ficar subjugado com a sensação de revolta e indignação pela sensação de impunidade que se vive hoje na cena internacional e pelo estado de indigência a que as instituições europeias chegaram, com os principais líderes a meter o rabinho entre as pernas perante o principal organizador e beneficiário da desordem internacional. A desordem como a nova ordem internacional, é a este estranho estado das coisas que chegámos. Nestas ocasiões, o futebol, esse simultaneamente eterno odiado e apreciado evento e universo oferece-nos a salvação e assim mudo de tema como uma condição de sanidade mental face ao clima de pressão com que a situação internacional e a debilidade europeia nos entram por casa adentro. O despedimento de Ruben Amorim pelo Manchester United e o desacerto goleador de Viktor Gyokeres sugerem-me uma reflexão, que nos transporta para um risco muito frequente e, apesar disso, frequentemente ignorado, o de esquecermos que as transferências de contexto são mais complexas do que o princípio da flexibilidade adaptativa pode fazer crer.)
O futebol português, quando o vemos e interpretamos com as lentes a que estamos habituados, permite façanhas e notoriedades descentradas da norma e vou retirar desta reflexão o universo Cristiano Ronaldo, pois ele é difícil de acomodar na reflexão que me apetece construir.
A ascensão de Ruben Amorim pelo estrelato dos treinadores nacionais pode dizer-se que foi meteórica, ainda que tivesse anunciado no Sporting de Braga o que veio depois a confirmar em Alvalade. Mas a condição que veio a revelar-se decisiva na sua afirmação passou também pelos seus dotes comunicacionais, iniciando um estilo de discurso como treinador a que na altura a imprensa desportiva e geral não estava habituada. Essa inovação discursiva combinada com os resultados e estilo agradável de jogo catapultou o Sporting para o ressurgimento desportivo e daí à internacionalização foi um pequeno passo. Imagino, no entanto, que em oposição ao estado organizativo geral do país, o Sporting de Ruben Amorim era como clube uma organização bem mais apetrechada do que o franchisado Manchester United poderia oferecer. Não é a presença sistemática de Sir Alec Ferguson em Old Trafford ou nas bancadas de clubes vizinhos que o Man United visita, como aconteceu ontem no Elland Road em Leeds, com todo o seu prestígio emblemático, que pode disfarçar as debilidades organizativas de um clube que decididamente não está a controlar bem a transição para um outro modelo de entidades futebolísticas.
A resiliência de Amorim a uma época trágica como foi a do ano transato e os fogachos da época atual, com exibições promissoras, mas seguidas de apagões inexplicáveis, foi simplesmente patética, com a imagem sucessivamente alimentada de um homem amargurado, obstinado e lutando semanalmente com as críticas de todos os bichos-caretas de antigos jogadores do Man United, enfrentando, não o ignoremos, as dificuldades de comunicação numa outra língua que não o português.
A transferência de contexto a que Amorim foi submetido é digna de um caso de estudo: sair de um clube organizado que se destaca numa Liga que é globalmente fraca e com competitividade reduzida a um grupo reduzido de clubes e apostar tudo na saída para um clube debilmente organizado que joga numa Liga superlativa em termos de massa crítica de jogadores de qualidade e de competitividade só através de uma convergência acidental de condições favoráveis poderia ser bem-sucedida. Sir Alec Ferguson ajudou dizendo que Amorim precisaria de uma década para atingir o que pretendia, mas não chegou. O sexto lugar empatado com o Chelsea em quinto lugar foi considerado insuficiente e a última conferência de imprensa de Amorim foi uma espécie de harakiri libertador. A conclusão é óbvia: o contexto importa.
O caso de Gyokeres releva da mesma abordagem. Num contexto de defesas tenrinhas, apesar de muito concentradas, algumas do tipo autocarros em frente da baliza, o goleador sueco foi o terror dessas defesas, sobretudo à custa de uma impetuosidade física a que o futebol português não estava habituado. A transferência para o Arsenal não está a corresponder ao que o seu treinador, o hábil e competente Mikel Arteta esperaria, os golos escasseiam, alguns de grade penalidade, e obviamente que na Premier League a impetuosidade de Gyokeres passa menos despercebida. Claro que pode existir aqui uma interrupção de boa forma do atleta. Mas tendo a crer que o contexto é distinto – das defesas tenrinhas às defesas coriáceas vai uma significativa alteração de contexto. E a moral da história é a mesma – o contexto importa e obviamente a transferência para um novo contexto é algo que tem de ser profundamente avaliado.
O futebol é nesta questão uma metáfora relevante para inspirar uma utilização mais consistente da transferência de conhecimento. A vulgarização das chamadas boas práticas se não obedecer a esta inspiração corre o risco de se afundar na nulidade.
domingo, 4 de janeiro de 2026
UMA OPERAÇÃO TÃO BEM-SUCEDIDA COMO MISTERIOSA
(Após termos escutado a provavelmente mais fanfarrona declaração de todos os tempos dos Presidentes americanos com que Trump brindou o mundo depois de “ter assistido pela televisão”, como se de uma série de ação se tratasse, à operação desenvolvida contra Nicolás Maduro, vão-se conhecendo alguns pormenores sobre a bem-sucedida intervenção, mas paradoxalmente vão-se adensando as dimensões mais misteriosas deste perigoso precedente na violação do mais elementar direito internacional. Multiplicam-se, de facto, os aspetos não explicados, a começar pela estranha opção de aceitar de bom grado a passagem do poder para a vice-presidente de Maduro, a chavista Delcy Rodriguez e, simultaneamente, de afastar liminarmente do poder a Nobel da Paz Corina Machado, podendo mesmo dizer-se que as dimensões não explicadas superam de largo as que são melhor-conhecidas. Pesquisei as mais diversas interpretações sobre o que efetivamente se passou até à detenção em Brooklin de Nicolás Maduro e a que mais atraiu a minha atenção foi um longo comentário de Michael D. Sellers, um antigo funcionário da CIA, especialista nas questões da Rússia e presentemente investigador, no qual é possível encontrar a cenarização do que pode ter acontecido.)
A primeira observação de Sellers foca-se na inusitada operação de duas horas para concretizar o planeamento realizado, que é incomum em operações sobre as quais existe informação imperfeita e cuja avaliação de risco exige o encurtamento do tempo das respetivas operações. Esta contradição com as “boas práticas” reconhecidas neste tipo de operações faz-nos pensar que a indeterminação não seria grande e que o terreno fora preparado com contactos e compromissos apaziguadores com o círculo mais íntimo de Maduro.
A segunda perplexidade é a total inexistência de baixas entre as tropas americanas e apaniguados de Maduro adensando os aspetos misteriosos desta operação. Muito provavelmente, Maduro não estaria escondido em qualquer instalação de segurança máxima, pois duas horas de operação total sem a produção de baixas de qualquer um dos lados são algo de surpreendente e sinal de que existe aqui matéria menos clara. Sellers identifica quatro possíveis coisas que podem ter acontecido: “i) controlo do perímetro de segurança de Maduro concretizado sem qualquer resistência; ii) verificações e negociações deliberadas; iii) acordo local ou obediência cega a ordens exteriores; iv) ou um objetivo que nunca foi verdadeiramente hostil à entrada das forças americanas”.
Qualquer uma destas possibilidades está em contradição com a magnitude dos meios envolvidos, que Trump classificou de ego cheio da maior operação miliatar realizada desde a Segunda Guerra Mundial. Perplexos? Sim, há muitas razões para isso.
A não observação de baixas adensa ainda mais o mistério, pressupondo muito provavelmente uma negociação prévia com as forças do regime de Maduro, transformando a operação não como um raide mas como uma operação exclusivamente destinada a assegurar a transferência para os EUA de Maduro.
Esta cenarização do contexto em que a operação decorreu permite antever que na negociação do compromisso realizado tenha estado o acordo americano com a indicação pelo Supremo Tribunal venezuelano do nome de Delcy Rodriguez e garantido o controlo da intervenção americana na indústria petrolífera venezuelana, tão do agrado do presidente americano e fortemente realçada na sua fanfarrona declaração aos americanos e ao mundo.
Se estas explicações estiverem corretas compreende-se que Corina Machado não tenha recolhido o apoio da administração americana, que Rubio e Trump falem de uma transição política não sujeita nem a prazos nem a condições prévias e, estranheza das estranhezas, seja uma chavista a assumir o lugar de Maduro nos próximos tempos.
Não deixa de ser curiosa a síntese final que o ex-funcionário da CIA realiza:
“Não se trata de admirar a operação ou de a condenar, ou diminuí-la de qualquer modo. Trata-se antes de a interpretar corretamente.
Uma captura de duas horas, sem derramamento de sangue, de um presidente presumivelmente no interior de um ambiente minimamente fortificado sugere algum tipo de fratura interna, de um constrangimento negociado ou de uma paralisia temporária, não de uma vitória imaculada.
Esta distinção é relevante não apenas para a nossa compreensão de como a captura teve lugar, mas pode também moldar o que virá a seguir, por exemplo se a autoridade local se consolida ou colapsa, se a cooperação se revelou ilusória e se a agora limpa extração se transformará num caos de amanhã.
Como antigo funcionário da CIA, afirmo seguramente o seguinte:
Quando a mecânica observável de uma situação não coincide plenamente com a retórica, prestem atenção à mecânica. Elas usualmente estão a dizer a verdade – calmamente- até que a política alinhe.
Fiquem atentos”.
Aconselho por isso os nossos representantes mais direitistas, prontos em toda a linha para racionalizar e desculpabilizar o precedente da operação americana, que esperem pelos desenvolvimentos futuros e que abstraiam da fanfarrona proclamação de Trump. Se isso lhes for possível, o que eu duvido.
À boleia de Bradford DeLong, deixo-vos ecos interpretativos do que se passou em Caracas:
1. Associated Press — What to know about the U.S. capture of Venezuela’s Maduro
https://apnews.com/article/venezuela-us-maduro-what-to-know-a57528ff315a7f70ed51a1721f5e0bc2
2. Associated Press — U.S. plans to “run” Venezuela and tap its oil reserves, Trump says
https://apnews.com/article/ca712a67aaefc30b1831f5bf0b50665e
3. CBS News — U.S. strikes Venezuela and captures Maduro; Trump says U.S. would “run” country temporarily
https://www.cbsnews.com/live-updates/venezuela-us-military-strikes-maduro-trump/
4. Financial Times — Nicolás Maduro captured by U.S. forces and flown out of Venezuela
https://www.ft.com/content/46ee8a0f-d421-4f7d-9514-297a576ec346
5. Reuters — Venezuela rejects “military aggression,” says attacks hit Caracas and several states
6. Reuters — Venezuela vice president Rodriguez in Russia, four sources say
7. Reuters — Loud noises heard in Venezuela capital; southern area without electricity
8. PBS NewsHour — “We want it back”: Trump demands Venezuela return land, oil rights to U.S.
9. Times of India — “Dragged out of their bedroom”: new details on how U.S. captured Maduro and his wife
10. The Guardian — Colombia’s president says Caracas is being bombed, urges UN Security Council meeting
https://www.theguardian.com/world/2026/jan/03/venezuela-caracas-explosions-colombia-petro-un
Nota complementar
Já depois deste post estar publicado, novas informações surgidas na imprensa internacional permitem concluir que a tese da ausência de baixas humanas não é correta. Pelo menos, os guarda-costas de Maduro terão sido eliminados. Esta nova informação não prejudica totalmente o sentido do post, pelo que o manterei.
Aproveitei, entretanto, para inserir a filiação digital do comentário de Michael D. Sellers.





