terça-feira, 21 de novembro de 2017

INOVAÇÃO E CATCHING-UP




(O Banco Mundial acaba de publicar um importante relatório designado de The Innovation Paradox; uma excelente oportunidade para nos centrarmos nas promessas não totalmente cumpridas de que os investimentos em inovação compensam em matéria de catching-up face a países mais avançados, ainda que fundamentalmente se trate de acesso a tecnologia e conhecimento que outros produzem)

Existe um largo consenso entre os economistas segundo o qual as diferenças de rendimento per capita entre os países (os de fronteira e os que pretendem convergir para essa fronteira) são pelo menos explicadas em 50% pelas diferenças de produtividade entre esses mesmos países. Sabemos também que a inovação tecnológica e a inovação em geral constituem uma via segura para que essas diferenças de produtividade se esbatam. O argumento da disseminação e acesso à difusão da tecnologia como forma de acelerar o processo de catching-up entre os menos desenvolvidos e os que comandam a fronteira do conhecimento é, aliás, um dos grandes argumentos invocados para que as vantagens da abertura se sobreponham à tentação da autarcia.

O relatório do Banco Mundial (link aqui) é precioso no sentido de demonstrar que esse catching-up não estará a processar-se ao ritmo consistente com as expectativas atribuídas à consistência da relação “producing ideas versus using ideas” para homenagear aqui a originalidade dos contributos de Paul Romer.

A disseminação das ideias através da difusão do progresso tecnológico não se reconverte imediatamente ou por magia em aumentos de produtividade. Exige, por um lado, investimento em equipamentos e em outros fatores imateriais de inovação e, por outro, condições facilitadoras como a acumulação de capital humano em competências dos trabalhadores, gestores e empresários, as condições organizativas das empresas em que esses investimentos devem ocorrer. E não deve esquecer-se a relevância dos fatores da governação, sobretudo do ponto de vista como a política de inovação é organizada. Alguns destes mecanismos de transmissão do efeito da inovação sobre a produtividade podem sofrer constrangimentos e bloqueamentos. São esses constrangimentos que podem explicar o tal paradoxo da inovação de que fala o Banco Mundial.

Em que é que tal paradoxo consiste?

O potencial de difusão de progresso técnico é hoje imenso, o que significa que o potencial de catching-up o é também. Dizem os economistas que em economia aberta as externalidades do progresso tecnológico são elevadíssimas para as economias em desenvolvimento. Mas essas externalidades não estarão a revelar-se.

Os economistas costumam raciocinar nos seguintes termos: quanto maior a distância de um país face aos países de fronteira tecnológica maior o potencial de convergência. Mas o que parece agora emergir é uma ideia que muitos economistas do desenvolvimento intuíram, embora não o tenham demonstrado formalizada e rigorosamente. Parece haver um limiar de desenvolvimento até ao qual esse princípio se aplica. Mas abaixo desse limiar, os constrangimentos de capital humano, empresariais, de alocação rigorosa do investimento e organizacionais bloqueiam a transmissão dos efeitos sobre a produtividade, pelo que estar longe da fronteira não significa maior potencial de catching-up.

O estudo do Banco Mundial é importante para uma reflexão sobre os nossos próprios problemas de catching-up tecnológico. Pelos padrões do Innovation Scoreboard Europeu, Portugal é um follower moderado. Ou seja, outros países estarão a convergir tecnologicamente de forma mais rápida. O Portugal 2020 realizou um enorme esforço de investimento em inovação e não poupou também esforços para que mais investimento em I&D se projetasse na vida das empresas. Mas ao contrário do que por vezes ressalta das palavras do governo, o esforço de investimento do PT 2020 não é um esforço de dinamização macroeconómica, intensificando o investimento tout court. Para que a programação corresponda ao que dela é esperado, é necessário que os investimentos em inovação apoiados se traduzam em aumentos de produtividade capazes de reduzir o gap de produtividade que mantemos em relação à fronteira. Ou seja, para que o catching-up não se fique pelos pressupostos da abordagem.

Mas há uma matéria que convém não ignorar. O investimento que passa pelo PT 2020 não abrange todas as empresas do país. Numa perspetiva positiva, poderemos admitir que os investimentos apoiados vão aumentar de facto a produtividade das empresas. Pode acontecer o contrário ou, pelo menos, não ser um aumento suficientemente forte. Mas há depois o efeito decorrente sobre a economia não apoiada. O investimento apoiado não é seguramente uma pequena pedra que se lança no lago, produzindo uma agitação impercetível das águas. Mas também não é seguramente algo que provoque uma grande vaga.

Moral da história, não devemos limitar o interesse pelo investimento apoiado com Fundos Estruturais ao seu impacto macroeconómico de relançamento do investimento após o período de crise. Os seus efeitos em termos de produtividade são cruciais. Mas convém não esquecer o tecido empresarial que não beneficia desses apoios. Também aí se joga o tal “catching-up”.

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