sábado, 27 de abril de 2019

A EUROPA SEGUNDO GAMA



Jaime Gama é um dos personagens públicos nacionais dotado de uma melhor combinação entre espessura e elegância. Afastado agora das lides políticas, onde sempre foi igual a si próprio (conservador e elitista, mas firme nos seus valores essenciais e suficientemente “fora da caixa”, tudo sem deixar de ser fugidio em relação ao exercício de funções que considerasse, no concreto da ocasião, além da conta), não deixa de nos fazer chegar por outras vias os frutos do seu pensamento e da sua elaboração informada em torno dos grandes temas político-estratégicos da atualidade, acrescentando-lhes aliás também significativas incursões do foro histórico e do domínio cultural. No que me toca, não releva tanto a sua posição efetivamente expressa sobre as matérias que aborda como principalmente a seleção precisa dos tópicos que elege identificar e a correspondente solidez na estruturação do argumentário (independentemente de uns toques cheios de graça a que se não consegue eximir) – ou seja, lê-lo ou ouvi-lo constitui uma ajuda preciosa para o nosso próprio processo de concatenação de ideias.

A entrevista que concedeu a Teresa de Sousa, saída no segundo caderno do “Público” do passado dia 7 e que só consegui ler com atenção neste feriado, ilustra cabalmente o meu ponto, no caso em relação à atualidade da questão europeia e a importantes adjacências da mesma. Uma leitura que vivamente recomendo por ser verdadeiramente incontornável, aqui me limitando, em termos meramente sinalizadores, a reproduzir alguns sugestivos excertos na infografia de abertura (a encruzilhada presente da União Europeia – “queremos continuar a fingir a Europa?” –, o papel da Alemanha e da França na equação, o incompreensível caminho britânico, a necessária integração responsável do Sul e o caso de Portugal). Neste quadro, permito-me terminar chamando a atenção para aquela interessante referência final que, a nosso lusitano propósito, reza assim: “E temos também a consciência de que, não copiando o que há de mau no resto do mundo, podemos preservar alguma diferença que nos garanta aquela paz que nos poupa às guerras dos outros” – notável, qualquer que seja a motivação que se queira atribuir ao todo da frase!

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