terça-feira, 6 de outubro de 2020

E O BANCO DE PORTUGAL PRONUNCIOU-SE!

 

(O Boletim Económico de outubro de 2020 do Banco de Portugal foi publicado e com ele valiosa matéria para compreender melhor o comportamento da economia portuguesa em plena pandemia e no meio de tanta incerteza antecipar alguns rumos possíveis enquanto se procura controlar o bicho. A discussão política em Portugal precisa de momentos desta natureza. Sem perder o sentido crítico da informação publicada, apesar da sua seriedade técnica, é momento de descer à terra e situar os debates na evidência que nos fornecem, sem truques interpretativos.)

Qualquer Boletim Económico do Banco de Portugal é motivo de pausa necessária para repensar evidências. No caso vertente, a importância é redobrada pois estamos no momento certo para nos familiarizarmo-nos com os efeitos económicos da pandemia e antecipar o que pode ser o nosso futuro imediato no seio de tanta incerteza.

O referido Boletim recorre a um indicador de registo da atividade económica diária, na sequência de investigação recente publicada na série de Working Papers do Banco (link aqui), que vem na linha das necessidades de informação de muito curto prazo e curta frequência que a monitorização económica da pandemia exigiu. O Indicador Diário de Atividade Económica (DEI) não é mais do que um indicador compósito que integra variáveis como o “tráfego rodoviário de veículos comerciais pesados nas autoestradas, o consumo de eletricidade e de gás natural, a carga e correio desembarcados nos aeroportos nacionais e as compras efetuadas com cartões em Portugal por residentes e não residentes”.

O gráfico que descreve o comportamento desse indicador de outubro de 2019 até fins de agosto de 2020 tem uma leitura particularmente rica para descrever o modo como os efeitos económicos da pandemia se produziram com queda acentuada da atividade económica durante os meses de março e abril para depois iniciar uma recuperação tímida mas ainda longe dos valores que o DEI apresentava em outubro de 2019.

Tal como referi em posts anteriores, a principal diferença da crise económica atual (veremos se não terá repercussões financeiras como o Governador do Banco de Espanha sugeriu ontem como possibilidade) consiste no seu caráter sincrónico global. Ou seja, salvo algumas gloriosas exceções, a pandemia faz jus ao nome e atinge marcadamente toda a atividade económica praticamente por todo o mundo. Daqui resulta uma importante consequência que radica no facto das exportações não poderem funcionar para já como motor global de recuperação, já que se contam pelos dedos as economias que se podem dar ao luxo de reforçar importações e terem de esperar a atenuação da pandemia e dos seus efeitos económicos. Por isso, enquanto que o discurso político de oposição caseira brama aos céus pela necessidade de colocar as empresas no centro dos apoios de recuperação e resiliência, a presidente do FMI clamava há dias pela importância estratégica do investimento público como elemento de relançamento da economia mundial nesta altura. Pensarão alguns elementos mais tapados dessa oposição caseira que a senhora Kristalina Georgieva ensandeceu. Mas o relatório do FMI, Public Investment for Recovery (link aqui e aqui para todo o capítulo do Fiscal Monitor) em que o “nosso” Vítor Gaspar aparece como um dos coautores (pensará a oposição mais tapada que também Gaspar ensandeceu), não é mais do que a consequência lógica de estarmos perante uma crise sincrónica por toda a economia mundial e os números que o relatório apresenta em termos de impacto possível do reforço do investimento público são apreciáveis.

Certamente, que as empresas terão o seu lugar e as políticas públicas terão mais tarde ou mais cedo de internalizar a sua importância como criadoras de emprego e de riqueza. Mas não podemos ignorar que vínhamos de um período em que a alocação de recursos em favor dos bens e serviços transacionáveis se revestiu de elevada prioridade e as empresas portuguesas reagiram bem a essa mudança de rumo, acelerando por essa via a saída dos efeitos penalizadores da crise das dívidas soberanas. Ora, essa opção foi objetivamente interrompida pela pandemia e pelo sincronismo da crise económica global. Por isso, a política monetária por mais bazucas que arme e dispare não chega. A política fiscal e o investimento público são essenciais para uma saída o mais rápida possível. Para que tal seja viável, a crise sanitária não pode ser acelerada seja pela incompetência e o desgoverno político, seja pela imbecilidade humana, orquestrada e estimulada por gente que troca favores eleitorais por vidas como Trump.

E, ao contrário do que uma certa esquerda aluada por vezes pensa, reivindicar hoje a força motora do investimento público não significa perder de vista a análise rigorosa do seu custo benefício e ignorar as exigências de boas escolhas públicas, transparência da decisão e imputação de responsabilidades por más decisões para a informação disponível.

Por isso, nem a Kristalina Georgieva nem o Vítor Gaspar ensandeceram. Limitam-se a ler corretamente a dimensão e as raízes da crise atual. De forma aliás “cristalina”, passe o trocadilho.

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