terça-feira, 16 de março de 2021

ALARMES DO NOSSO TEMPO

 

(O pânico político generalizado que a vacina da AstraZeneca está a provocar na Europa com as agências europeias a tardarem a emitir uma posição convincente e a permitir que cada país assuma o seu próprio princípio da precaução é bem uma ilustração dos alarmes securitários do nosso tempo. Sem questionar o princípio da precaução de que sou um fervoroso adepto, seria bom que esse princípio fosse colocado no prato da balança com o efeito de intensificar processos de rejeição e de negacionismo relativamente às vacinas COVID-19..

A vacina da AstraZeneca-Universidade de Oxford esteve para nossos males envolvida numa incompreensível disputa União Europeia versus Reino Unido, que é de todo indesejável face ao problema real que o mundo tem em mãos, a escassez de vacinas e os bloqueios à sua produção e distribuição, para já não falar no vergonhoso panorama da distribuição mundial. Se já não bastasse essa maleita, uma outra se lhe juntou, a das dúvidas (infundadas) quanto à sua eficácia para pessoas com mais de 65 anos e fecha em beleza com a suspeição de problemas de tromboses e acidentes do tipo após a sua administração.

O gráfico (curiosamente designado de gráfico de tarte) que o Pedro Magalhães colocou no seu Twitter e que abre este post) (link aqui) mostra com clareza que os casos comunicados são uma ínfima e muito residual parte do volume de pessoas que já beneficiaram da vacina, com relevo para o Reino Unido que beneficiou de jogar em casa e a administrou genericamente na população idosa.

Apesar disso, como num dominó cujas peças se afundam numa série sucessiva, um país após outro, incluindo Portugal, suspenderam por alguns dias a vac ina até que mais e melhores fundamentos científicos fossem encontrados no sentido de calibrar o risco. Venceu o princípio da precaução e do efeito contágio, pois a partir do momento em que países como a Alemanha o fizeram politicamente abre-se um quebra cabeças para quem decidisse manter a vacinação. E assim aconteceu.

Num processo único no mundo da ciência de se conceberem e disponibilizarem vacinas contra um vírus pandémico em tão reduzido espaço de tempo, seria ingénuo e pouco sério admitir que não surgissem fenómenos desta natureza. A ciência precisa de tempo para consolidar fundamentos e o próprio processo de consolidação das vacinas no mercado precisa obviamente do período de aplicação em massa para afinar alguns desses fundamentos.

Mas o que me parece mais desagradável e pouco avalizador do que podem as agências europeias e internacionais fazer é a lentidão da sua reação, permitindo que as agências nacionais emitam o seu juízo de precaução. É que, neste caso, o princípio da precaução não pode aplicar-se em termos absolutos. Qualquer dúvida infundada sobre as consequências de uma vacina induz o reforço dos comportamentos de rejeição e de negacionismo, algo a evitar na gestão de uma pandemia.

Já basta a dança da geografia que distribui desigualmente as diferentes ondas de contágios, como a presente deslocação de oeste para leste na Europa, sobretudo combinada com a escassez de vacinas e com o avanço desigual do processo de vacinação.

Imagino que não seja fácil num espaço de tempo tão curto clarificar se a precaução tem fundamentos ou se foi um típico alarme securitário a que a política é muito sensível, e com a comunicação social à perna, sobretudo depois da situação portuguesa melhorar e do processo de vacinação estar a correr bem nos domínios da nossa responsabilidade. Mas seria uma boa notícia essa clarificação chegar o mais rapidamente possível.

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