quarta-feira, 24 de março de 2021

QUEM DIRIA!

 


(Não é difícil concordar que os mercados discográficos do Reino Unido e dos EUA pautam as tendências do consumo material de música, qualquer que ela seja. A DIAPASON bem tenta colocar no mapa o mercado francês, sobretudo no campo da música clássica, mas em matéria de música popular os ingleses e os americanos traçam as tendências. O que o THE GUARDIAN nos traz não é uma perspetiva global do mercado discográfico, mas uma perspetiva segmentada do mesmo, mas ainda assim surpreendente.

Já tínhamos percebido que a pandemia tinha abanado hábitos e modelos de consumo, antecipando ilusória ou efetivamente novas tendências. O que não tinha intuído é que pudesse transportar consigo ondas de revivalismo.

O The Guardian confronta-nos (link aqui) com uma informação que vale o que vale, mas que pode ser histórica do ponto de vista tecnológico, ou melhor do ponto de vista da tecnologia para usufruir plenamente a música. O consumo de discos vinyl terá ultrapassado o consumo via CD, qualquer que seja o apuro com que este se apresente.

Mas será mesmo que a pandemia impulsionou o revivalismo dos side A e side B, envoltos em papel macio, com capas marcantes e a necessidade de ajoelhar ou de passar por posições acrobáticas para colocar o LP a girar, pois nem todos conseguem colocar o gira-discos em posição acessível ao vulgar dos mortais que está a trabalhar ou simplesmente a curtir o tempo livre?

Ou será que essa tendência já vinha de trás? O que me parece é que a luta a dois oculta outras tendências. O que sabemos é que a pandemia não suspendeu de todo a queda do CD, mas também é verdade que essa queda se devia mais ao consumo de música em plataformas e downloads, com a grande ajuda das inovações do tipo SPOTIFY ou outras.

O mercado britânico revelou no ano passado um autêntico boom de compras de LP’s vinyl, com um valor que atingiu os 4,8 milhões de discos, o que é um número tanto mais significativo quanto as lojas de retalho permaneceram fechadas por largos períodos. Pela notícia do Guardian percebe-se que não só o CD sofreu com esta revisitação de outros tempos (com uma queda de 1/3 das vendas em 2020), mas também que o vinyl se transformou numa espécie de complemento ao fenómeno do streaming, que comanda hoje a evolução das vendas dos principais distribuidores de música.

A história interessa-me a título do gozo pessoal, mas também como evidência da evolução não linear do progresso técnico.

Nos últimos tempos, tenho dado comigo em Gaia e em Seixas a revisitar LP’s já repletos de pó, que têm de ser devidamente limpos para poderem ser tocados. Algumas dessas preciosas revisitações foram do tesouro LAST WALTZ (link aqui), concerto da banda canadiana The Band em novembro de 1976, em São Francisco, USA, filmado magistralmente por Martin Scorcese a ouvir Maria João Pires tocando Schubert em vinyl. É um regresso a outros tempos.

Mas a questão também me interessa em matéria de progresso técnico.

Vejamos a história.

A (vinyl) é batido pelo aparecimento de B (CD) com as correspondentes implicações em matéria de equipamentos e de indústria. Mas A não desaparece e vai resistindo. Entretanto a emergência de C (streaming) revoluciona o consumo e nesse quadro de mais profunda alteração A consolida a resistência e tende a suplantar B que se afigura o principal perdedor. Há imensas questões que ficam por explicar neste processo de evolução tortuosa. É a tecnologia que determina ou é a sociologia do consumo que precipita o processo? E em que medida o raio da pandemia favorece a resiliência de A e precipita o desaparecimento de B? Ou em matéria de consumo e tecnologia da música não há mortes reais e definitivas?

Será que D (a cassete) poderá ressuscitar?

 

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