quinta-feira, 18 de março de 2021

OS DILEMAS DA UNIÃO

 

(Antes de mais explicito a minha convicção de que, apesar de todas as dificuldades e incongruências, Portugal está mais seguro a navegar a pandemia no barco da União Europeia do que a fazê-lo entregue à sua sorte, mesmo que sendo navegador competente. Isso não me impede de analisar as ditas incongruências e sobretudo de reconhecer que na gestão da pandemia pela Comissão Europeia e outras instâncias comunitárias como o Conselho Europeu estão essencialmente em causa os velhos dilemas da própria construção europeia, que teimamos em ignorar e de atirar para baixo do tapete.

À medida que o andamento e os resultados dos processos de vacinação em curso por todo o mundo (ou melhor para os felizardos deste mundo cujos governos tiveram acesso a qualquer vacina) são melhor conhecidos, a posição da União Europeia vista pelas lentes dos observadores não Europeus começa a fazer ressaltar a perda comparativa de dinâmica que o processo de vacinação europeu apresenta.

Ainda hoje de manhã, como assinante do Washington Post (link aqui) recebi um artigo que no seu parágrafo inicial dizia o seguinte:

O cuidadosamente planeado processo de vacinação que a Europa assumiu gerou uma crise maior. A União Europeia está a ficar para trás nas taxas de vacinação quando comparadas com outras nações desenvolvidas, aparentemente devido a um processo de compra que não foi competitivo no quadro da procura global.

A situação tornou-se tão carregada que a Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen afirmou quarta-feira que Bruxelas estava a considerar a hipótese de bloquear as exportações de vacinas de maneira a assegurar que “a Europa obtém a sua quota justa” – um pronunciamento que gerou muitas respostas furiosas de países fora da UE que esperam as suas vacinas”.

Não tenho conhecimentos de mercado que me permitam isolar onde terão estado as eventuais insuficiências de negociação comercial que a equipa da Comissão Europeia terá protagonizado, nem sequer vou ironizar sobre as notícias que correm sobre quem suportou tecnicamente essa negociação e o que costumavam antes fazer tais quadros comunitários. O mesmo se diga quanto à possibilidade de algumas das empresas produtoras das vacinas terem tecnicamente roído a corda à Senhora von der Leyen e sua equipa, que também pode bem ter acontecido nesta época de baixa de intensidade ética nos negócios, resultante sobretudo da onda de “curto prazismo” de vistas e de todo o poder à remuneração corrente dos acionistas.

O que me interessa destacar e vociferar sobre ela é toda a hipocrisia que atravessa a dualidade de pensamento que assim caracterizo: provavelmente, os que mais investem sobre esta posição menos confortável da Comissão Europeia em matéria de posicionamento na procura mundial de vacinas são em grande parte os mesmos que afirmam que a União Europeia está a invadir perigosamente poderes nacionais e soberanos. Concordando que esses processos exigiriam, atempadamente, agora virão provavelmente tarde, um maior escrutínio de populações e parlamentos nacionais, quem deve não teme, o que me parece é que quanto mais fortes forem esses sentimentos de preservação dos resíduos nacionalistas mais difícil será a União Europeia comparar-se em agilidade de decisão e de autonomia de negociação com outros transatlânticos mais ágeis, apesar da sua dimensão, como são os EUA, a China, a Rússia ou mesmo o Canadá. Atribuo em grande medida as incongruências, hesitações, ingenuidade negocial ou lá o que seja da Comissão Europeia a essa indefinição do que fazer à construção europeia. Usando a metáfora do ténis, subir à rede ou recuar para o fundo do court, eis a questão, mas nunca ficar a meio dele onde a vulnerabilidade é máxima. Aí somos metralhados com as bolas dos que querem preservar a todo o custo o sumo das soberanias nacionais e com as bolas do que querem jogar de modo mais acutilante. E daí não sairemos com saúde, desculpem esta formulação, porque estando às voltas com questões de vacinação a questão pode ser trágica.

Imaginem o que pode acontecer de grave em matéria de populismos nacionais como fator de corrosão do projeto europeu, se a Hungria e outros países, mas o significado da Hungria é mais amplo, com a sua estratégia de compras autónomas de vacinas começarem a apresentar melhores índices de vacinação do que a Casa-Mãe União Europeia. Suspeito que talvez isso não aconteça, porque em matéria de organização o nacionalismo de Orbán deixa a desejar. Mas é algo que pode acontecer e os efeitos dinâmicos de tal evidência seriam desastrosos.

E esta loucura pega-se e, pelos vistos, é contagiosa tal como o vírus. Não é que o novel governo açoriano não ameaçou já que se certas condições não forem cumpridas a Região Autónoma envidará ela própria os seus esforços para compra autónoma de vacinas. Não sei se este topete açoriano resulta ou não da nova fórmula governativa regional, mas depois não clamem pela solidariedade dos continentais.

Sem comentários:

Enviar um comentário