terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O NUNES ESCREVEU UM LIVRO, OH YEAH!



O homem publicou duzentas e setenta e uma páginas de prosa e deu-lhes um título simultaneamente vendável pela simplificação e apresentável pela matematização: “Euro = Neoliberalismo + Socialismo”. No fundo, uma espécie muito personalizada de “história do pensamento económico” em forma digest para chegar ao subtítulo (“O Momento Maastricht”) e à defesa da ideia peregrina de que “o euro é o ponto de encontro entre duas correntes doutrinárias europeias que se opuseram ao longo do século XX, mas que se aproximaram no processo de construção europeia”, num posicionamento que se pretende crítico em relação às consequências de um tratado assinado em 1992 mas surge contraditado na badana do livro quando é sublinhado que este “é uma homenagem ao Tratado de Maastricht, que entrou em vigor há vinte anos, em 1 de novembro de 1993”.

Com citações “à ganância” – e nem sempre por aí fora de criteriosas... – provenientes de autores pomposamente referidos pelo nome completo (sempre vai enchendo...), o texto passa largamente ao lado de uma compreensão essencial sobre o processo de integração europeia, desinserindo-o de muito do que o determinou e explicou e de muito do que ele produziu e alcançou – trata-se, pois, de um documento de natureza ideológica, a-teórico e a-histórico, bem evidenciador da verdadeira qualidade daquilo que o prefaciador pretende elogiar num Autor (?) “que longamente palmilhou o conhecimento, a experiência e a sabedoria, até ao topo da montanha”. 

Foi para mim penoso constatar quanto uma pessoa que respeito e considero, ali referida como Miguel José Ribeiro Cadilhe (MJRC), podia tão facilmente cair na esparrela que lhe foi armada por um convite para prefaciar um livro que culmina nele próprio – o capítulo final de vinte e duas escassas páginas dedicadas ao tema anunciado, “A Crise do Euro”, tende a fazer dele e das suas teses o centro do debate em Portugal. E por muito querido que lhe possa ser “o dilema do reformador”, aliás com toda a legitimidade, MJRC sabe que eu sei que ele sabe mais do que o que afirma quando fala em admiração a propósito do homem e se deixa misturar com dois comentadores rocambolescos ou pagadores de serviços prestados, um a referir-se a um texto “erudito” (só tu me farias sorrir, caro José Manuel Moreira!) e outro a definir o texto com o rigor que advém do adiantamento mental que se lhe reconhece (“quis ensaiar uma narrativa [...] onde pinceladas de atualidade coexistem com doutrinas económicas” é absolutamente brilhante!) e a desejar “felicidades editoriais e uma cópia do livro para eventual uso” nas suas aulas da Nova (até a chacota tem limites, dr. Braga de Macedo!).

Termino sem mais nada acrescentar sobre o homem e as suas multifacetadas circunstâncias, antes apelando às minhas melhores capacidades de nojo/pudor para dar lugar à compaixão que a todos os seres devia ser prestada: o homem teve um gosto, deve estar contente, deu-se prioridade à vida, que interessa afinal a porcaria dos conteúdos?

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