sábado, 5 de março de 2016

FALTA DE VERGONHA, IMPUNIDADE OU OUTRAS COISAS?





A dupla Passos Coelho – Maria Luís Albuquerque, no poder e agora na oposição mais ou menos silenciosa, constituem através das suas decisões, afirmações, comportamentos, boutades ou simplesmente desabafos o que costumo designar de sinalizadores ou marcadores de tendências que se vão consolidando sob os nossos olhos e às quais não temos prestado a devida atenção.

De facto, para um cidadão medianamente letrado e “bom pai de família”, sensato, não lembraria ao diabo que uma ex-ministra das Finanças, que teve uma passagem pelo governo relativamente atribulada e que deixou alguns rabos-de-palha, sobretudo no setor bancário e financeiro, por ter empurrado com a barriga (metaforicamente claro, porque a senhora é mais anca do que barriga) demasiadas coisas para depois das eleições, ainda sem ter tirado o luto, já se entregasse nas mãos do sistema financeiro internacional mais agressivo. O grupo Arrow Global não é propriamente uma pera doce do sistema financeiro internacional e não sabemos que tipo de envolvimento é que teve efetivamente no processo BANIF. O que sabemos é o Arrow Global viu na ex-ministra predicados e competências que devem ter projetado como elemento facilitador e veiculador de conhecimento para os seus negócios, obviamente em Portugal, porque Maria Luís não é nenhuma globetrotter.

Muitas opiniões, sobretudo as mais letradas, se viraram para a questão das incompatibilidades, o que para mim não é a via certa. Uma simples olhadela pelo estatuto das incompatibilidades do deputado da Assembleia da República mostra-nos um emaranhado de situações, atrás das quais seríamos capazes, se tivéssemos tempo para isso, encontrar situações pessoais ou de corpo (corporativas) que se acautelaram pela letra da lei. Nas incompatibilidades há que distinguir entre as “in” (à entrada) e “out” (à saída). Tendo em conta que não parece razoável coartar a entrada na política de alguém oriundo de qualquer profissão, será por certo na continuidade de vínculo à origem que estará o busílis da incompatibilidade. E como é óbvio ir para a política a partir da Universidade ou coisa do género e fazê-lo a partir do sistema financeiro ou de serviços que trabalham regularmente com a administração pública (escritórios de advogados, por exemplo) não é exatamente a mesma coisa. Nas incompatibilidades “out”, a partir do momento em que não se coarta a entrada na política a partir de qualquer profissão, o regresso parece dever estar garantido, a não ser que o orçamento do estado financie, pagando, um período de nojo para assegurar o regresso ao posto de trabalho anterior. Já me parece bem mais fácil alargar incompatibilidades “out”, tornando-as mais exigentes, quando a transferência se dá não para o emprego de origem e antes para um outro em que o relacionamento anterior com o governo e administração pública é mais saliente. Estou com curiosidade em saber o que dirá a Comissão de Ética ao pedido de Maria Luís.

Mas em meu entender a questão está para além das incompatibilidades. Ela é em primeiro lugar sintoma de degenerescência de valores na forma como se interpreta as relações entre interesse público e interesse privado e aqui a dupla Maria Luís-Passos personifica exemplarmente essa degenerescência, não acusada, numa pretensa inocência de cumprimento da lei, do tipo “onde está o problema?” ou “o que é que isso tem a ver connosco?”. Bom senso, sensatez, prudência, valores cruciais para quem tem de decidir. Em segundo lugar, a questão entronca numa outra de âmbito bem mais geral, que se prende com a influência do poder económico no exercício da política, particularmente do setor bancário e financeiro. Francisco Louça e a sua equipa identificaram uma teia já relevante de interesses cruzados entre o sistema financeiro e o exercício da governação. Mas mesmo face a essa informação tenho dúvidas se a fragilidade do nosso capitalismo nos autoriza a falar de uma plutocracia reinante e acabada em Portugal. Haverá sinais claros dessa tendência embora o modelo esteja ainda longe da verdadeira plutocracia em que a economia americana se transformou. A ciência política em Portugal não sei bem o que anda a estudar, sobretudo quando praticamente todos os seus expoentes estão mais interessados em aparecer na televisão para uns bitaites gostosos do que propriamente a enriquecer com conhecimento o debate político.

Contentemo-nos, por exemplo, com um excelente relativamente recente estudo de uma equipa de Harvard (Theda Skopcol e Alexander Hertel-Fernández), “THE KOCHE FFECT - The Impact of a Cadre-Led Network on American Politics”, fundamental para compreender a deriva à direita extrema do partido republicano e indiretamente para compreender o à sua maneira “out of the box” Donald Trump. Veja-se também a crónica de Jane Meyer na New Yorker diária (ver aqui).

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