domingo, 6 de março de 2016

SERÁ A INDEPENDÊNCIA DOS BANCOS CENTRAIS QUESTIONÁVEL?





A independência dos bancos centrais face ao poder político é para muito boa gente algo de inquestionável. E para esse bloco de opinião todo aquele que ousar colocar essa independência em questão é olhado de lado como alguém ao serviço da intromissão política no que deve ser pretensamente uma gestão económica.

Contudo, este argumento de “à política (governação) o que é da política e à política monetária o que é do banco central” tem que se lhe diga e está longe de constituir algo de universal e imune ao contexto em que se aplica. Vale assim a pena regressar ao contexto que tornou possível a assunção desse pressuposto inalienável, a independência necessária do banco central face ao poder da governação.

Estamos no tempo (histórico) em que a gestão da procura global ficou entregue à política monetária acionada pelo banco central em função de uma meta de inflação condizente com a estabilidade monetária, os célebres 2%. À política fiscal ficava dedicada uma outra função, bem mais passiva, evitar a concretização de défices públicos continuados que perturbassem a resposta às necessidades de financiamento das economias. Estávamos no tempo em que se acreditava que os economistas tinham finalmente domesticado os ciclos económicos e as turbulências associadas. Os banqueiros centrais velavam pelo cumprimento da regra inflacionária e os políticos tinham a sua ação limitada, não se podendo alargar nos défices públicos. Não é preciso uma licenciatura em economia para compreender que foi esse o contexto em que a base estatutária do BCE foi arquitetada e que é esse mesmo entendimento das coisas que levou ao famigerado tratado orçamental.

Pois este clima de fadas madrinhas entrou em flagrante disrupção. A turbulência voltou, o zero lower bound instalou-se para ficar perante a incredulidade dos que pensavam que a instabilidade havia sido domesticada. E a política monetária transfigurou-se, suou as estopinhas, inventou, reinventou-se, ousou o inesperado, mas nada. As taxas não tugiram, nem mugiram. A política monetária chegou aos limites da sua intervenção e a gestão macroeconómica global foi seriamente penalizada por esta incapacidade e pela errada marginalização da política fiscal. É deste contexto que deriva a austeridade e a muito tardia perceção que é aos governos que cabe neste contexto a gestão da procura global. Acirrados na defesa da sua independência, os bancos centrais estão já há demasiado tempo a dialogar com a sua própria impotência, renunciando a pedir ajuda à governação e assim perder a sua pretensa independência.

Simon Wren-Lewis tem-se destacado na defesa de que a independência dos bancos centrais não pode deixar de ser contextualizada e revista face ao clima de impotência de política monetária para gerir a prolongada agonia de recuperação em que a economia mundial está mergulhada. Não se trata de uma verdade universal, mas algo que resultou essencialmente da quebra de autoridade que as teorias keynesianas experimentaram quando a estagflação (inflação com estagnação económica) interpelou a gestão macroeconómica global. Esta última está a ser fortemente interpelada de novo. A governação responsável pelas condições de vida dos seus cidadãos não pode esperar sentada que a política monetária se reinvente sem resultados.

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