quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

6 DE OUTUBRO DE 1934



(O conflito catalão está impregnado de factos históricos cuja interpretação faz parte do próprio conflito e dos desencontros que o povoam. Em 6 de outubro de 1934 foi proclamada a constituição do Estado Catalão na República Federal e o seu autor foi Luís Companys, então presidente da Generalitat.)

Chegou-me recentemente às mãos um livro editado pela magnífica Marcial Pons, de autoria do catedrático de Direito Constitucional da Universidade Autónoma de Barcelona Enric Fossas Espadaler, com o título “Companys, golpista o salvador de la República? El juicio por los hechos de 6 de octubre de 1934 en Cataluña”.

Trata-se de uma análise jurídica dos factos que constituíram a República Catalã e cujos processos judiciais haveriam de conduzir à condenação do líder catalão por 30 anos e com base na acusação de rebelião militar contra a Constituição então vigente.

Embora o catedrático de Direito Constitucional se esforce por não estabelecer confrontos e análises comparativas com os acontecimentos de 2017 e posterior judicialização do processo político catalão (em que a nova palavra sedição irrompeu no teatro de operações), a verdade é que o livro na sua pretensa objetividade acaba por colocar o leitor perante essa eminente e permanente comparação possível. Por vezes temos a impressão que afinal 83 anos é pouco tempo, tamanha é a sensação de que a história catalã se repete.

Como facto histórico, vale a pena aqui citar duas declarações cuja versão é recuperada pelo livro, a de Companys e a de Ventura Gassol que era então o conselheiro mais velho da Generalitat.

A declaração de Companys (lida obviamente em catalão):

Catalãesm as forças monarquizantes e fascistas que desde há algum tempo pretendiam atraiçoar a República, atingiram o seu objetivo e tomaram o Poder. Os partidos e os homens que se manifestaram publicamente contra a escassas liberdades da nossa terra e os núcleos políticos que praticam constantemente o ódio e a guerra contra a Catalunha, constituem hoje o suporte das instituições atuais. Os factos observados proporcionam a todos os cidadãos a sensação clara de que a República, nos seus pressupostos fundamentos democráticos, está em perigo gravíssimo. Todas as forças autenticamente republicanas de Espanha e os setores sociais avançados, sem distinção ou exceção, levantaram armas contra a audaz tentativa fascista. A Catalunha liberal, democrática, republicana não pode faltar ao protesto que triunfa por todo o país, nem pode silenciar a sua solidariedade com os irmãos que em terras hispanas lutam até à morte pela Liberdade e pelo Direito.
Catalunha iça a sua bandeira, chama todos ao cumprimento do dever e à obediência que é devida ao Governo da Generalitat, que a partir deste momento rompe todo relacionamento com as falseadas instituições.
Nesta hora solene, em nome do povo e do Parlamento, o Governo a que presido assume todas as competências do Poder na Catalunha, proclama o Estado catalão da República Federal espanhola e ao estabelecer e fortificar a relação com os dirigentes do protesto geral contra o fascismo, convida-os a estabelecer na Catalunha o Governo Provisório da República que concretizará no nosso povo catalão o mis generoso impulso de fraternidade na ambição comum de edificar uma República federal, livre e magnífica. O Governo da Catalunha estará permanentemente em contacto com o povo. Aspiramos a estabelecer na Catalunha o reduto indestrutível da essência da República. Convido todos os catalães a obedecerem ao Governo e que ninguém desobedeça às suas ordens, com o entusiasmo e disciplina do povo.
Sentimo-nos fortes e invencíveis. Manteremos à distância quem quer que seja, mas é necessário que todos se contenham, sujeitando-se à disciplina e às ordens dos dirigentes. O Governo, a partir deste momento, trabalhará com inexcedível energia para que ninguém possa perturbar e comprometer os patrióticos objetivos da sua intervenção.
Catalães, a hora é grave e dolorosa. O espírito do presidente Macià, que restaurou a Generalitat, acompanha-nos.
Cada um no seu lugar e a Catalunha e a República no coração de todos-
Viva a República e viva a Liberdade.”

A esta proclamação de Companys seguiu-se a alocução de Ventura Gassol:

Catalães, ouviram o honorável presidente da Generalitat don Luís Companys. As suas palavras têm hoje uma ressonância histórica que nos recorda que é o ilustre sucessor do insigne e imortal Francisco Macià e o continuador daquela história de gestas gloriosas da Liberdade. Eu, agora em nome do Governo, peço-vos que vos disperseis por Barcelona e pela Catalunha para levar a boa nova da proclamação do Estado catalão da República federal. Ajudem as forças do Governo da Catalunha a impor a ordem, que hoje é mais indispensável do que nunca. Defendei com palavras e com ações as liberdades contra qualquer agressão, custe o que custar e venha de onde venha. Neste movimento de defesa da República do 14 de abril, os catalães hão de estar sempre ao lado das esquerdas espanholas. A nossa Catalunha é imortal. A nossa Catalunha é e será invencível , mas é preciso que cada um esteja alerta para seguir em cada momento a voz e as ordens do Governo da Generalitat. Catalães, viva a Catalunha. Viva a República federal.”

Não quero ser desmancha prazeres nem reinventor da história à medida. Mas quando nos projetamos inconscientemente na comparação, tenho a sensação de que 87 anos depois, os factos podem ser similares mas a aura e espessura dos novos intérpretes parecem algo desbotadas e mais frágeis.

E nestas proclamações o novo Estado catalão e a República Federal ainda conviviam bem e se respeitavam. O que acabou por durar pouco tempo.

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