terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

A UNIÃO E A NATO, A ALEMANHA, A RÚSSIA E A ENERGIA

(a partir de Patrick Blower, https://www.telegraph.co.uk)

Continuo a seguir com regularidade as opiniões bem fundamentadas de Wolfgang Münchau sobre matérias europeias, mas faz tempo que não recorro a essas leituras para aqui deixar novos elementos úteis de reflexão. Lendo ontem uma das suas habituais notas, curtas mas incisivas, decidi-me a recorrer à argumentação essencial da mesma para situar um dos grandes problemas que marcam a atualidade europeia. Intitulada “As duas Alemanhas”, a dita nota é especialmente crítica quanto ao papel dúbio e tendencialmente nefasto da Alemanha na Europa, quer no tocante à presente crise russo-ucraniana (“a Alemanha pretende ser um sócio fiável da NATO e manter a sua relação especial com a Rússia”, eis a questão) quer numa lógica mais estruturante e que já vem de longe (“na Alemanha, apenas se debatem as repercussões externas da sua política”, mas “uma das repercussões de que nunca se fala é a da relação direta entre o modelo económico alemão e a ambivalência da política externa germânica” porque “se o modelo económico consistir em obter grandes e duradouros excedentes correntes, estar-se-á a cultivar a vulnerabilidade própria às sanções” e “é assim que sucessivos líderes alemães acabam por contemporizar com ditadores” ― assim, e numa síntese afirmativa algo provocatória mas bem esgalhada: “a crise da dívida soberana da Zona Euro teve que ver tanto com os excedentes alemães como com os défices gregos” mas “a Alemanha intentou com êxito colocar o debate em termos de integridade orçamental e a União Europeia permitiu-lhe levar a sua avante”).





A chamada crise russo-ucraniana é o fundamentado pretexto a que recorre Münchau para explorar de forma bastante crítica o papel da Alemanha no quadro europeu e, especialmente, o seu papel largamente negativo num contexto tão complexo como aquele em que estamos envolvidos. Aproveitando para deixar esboçadas aquelas que entende serem as três “perguntas incómodas” que a NATO deve colocar urgentemente à Alemanha como condição prévia para se conseguir alcançar uma qualquer solução potencialmente clarificadora:

(i) “se a Rússia violar as fronteiras da Ucrânia, aceitaria a Alemanha parar o Nord Stream 2 [trata-se do projeto infraestrutural de abastecimento de gás à Europa (leia-se Alemanha em primeira linha) que é propriedade do conglomerado russo de gás Gazprom, que foi numa perspetiva europeia escandalosamente patrocinado por Angela Merkel e que se tornou notoriamente o projeto politicamente mais polémico da Europa, designadamente ao conceder objetivamente ao Kremlin uma significativa capacidade para usar a energia como arma de influência sobre a Europa e a Alemanha], mesmo se a Rússia limitar inicialmente a sua invasão a um parte pequena do país?”;

(ii) “se a Rússia invadir um país da NATO, votaria a Alemanha a favor da ativação da cláusula de assistência mútua estabelecida no artigo 5º [do Tratado do Atlântico Norte]?”; 

(iii) “o SPD, ou Estados comandados pelo SPD, aceitam dinheiro russo?”.

(Patrick Chappatte, https://politicalcartoons.com)

(Marian Kamensky, https://cartoonmovement.com) 

Mas Münchau vai ainda mais longe: em primeiro lugar, ao sustentar que a Alemanha tem vindo a jogar um jogo de despistagem em relação aos seus parceiros no tocante ao dito Nord Stream 2 e que se prepara para o prosseguir sem grandes contemplações (“a Alemanha não vai sacrificar a sua segurança energética para bem da região de Donbas”, tanto mais que “os alemães são mestres em mudar as regras de jogo”); em segundo lugar, ao sublinhar “o grau em que a Alemanha se converteu numa aliada da Rússia”, não tanto por via da influente ação de Gerhard Schröder mas sobretudo por razões internas bastante generalizadas de alguma simpatia e proximidade cultural e política; em terceiro lugar, ao afirmar que “muitos países mais pequenos da União Europeia seguem a mesma lógica” (“a União Europeia está cheia de mini-Alemanhas”), razão pela qual “a União Europeia nunca confronta a Alemanha sobre nada”; em quarto e último lugar, ao concluir pela insustentabilidade de tudo isto, confessando já ter desistido de acreditar no que respeita à União Europeia mas ainda esperar que a NATO não permita que “a Alemanha jogue o mesmo jodo dúplice”  e declarando que “a Alemanha é onde o Ocidente está no seu máximo de vulnerabilidade” e, numa asserção quase desesperada, que “a escolha para a NATO está entre confrontar a Alemanha ou deixar Putin ganhar com a ajuda oculta do seu mais leal aliado”. Uma leitura devastadora e altamente destrutiva!

Sem comentários:

Enviar um comentário