segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

PARA LÁ DA INCOMPETÊNCIA NO FUTEBOL

 


(O buraco para o qual o SLB se precipita de trambolhão em trambolhão, para além do que significa em termos pessoais de reconhecimento amargo de que os tempos são outros, suscita-me farta e variada reflexão analítica. Entendam esta última como uma forma subtil de me agarrar a qualquer coisa, sublimando penas e desgostos, permitindo-me passar enxuto pela onda de desnorte e de perda que se vai vivendo por aquele lado da Segunda Circular. Na verdade, para lá do mar da incompetência e de claros resquícios de tempos de impunidade, em que o futebol casou exemplarmente com a deriva dos não transacionáveis em Portugal, há aqui matéria interessante de reflexão sobre modelos de organização e de profissionalização em contextos que apontam para tudo menos para isso.)

Já se percebeu que, à medida que mais informação proveniente de vários processos judiciais em investigação e instrução vai brotando e sendo cruzada, a gestão de Luís Filipe Vieira do SLB, acolitada por uma SAD que, não imagino como, afirmava desconhecer o que se passava, assentava numa claríssima confusão de interesses. O que passava pelo mundo do futebol nesses tempos estava em linha com a deriva macroeconómica do país, o futebol bebia financeiramente na ilusão do imobiliário e dos serviços associados e estava enxameado de “empresários” que não o eram verdadeiramente. Habilidosos, chico-espertos, fura-vidas, corruptos movimentavam-se em tais oportunidades lucrativas como peixes na água e navegavam habilmente o mundo de paixões que o futebol sempre foi. E, um pouco alinhados com uma máxima do tipo “o futebol é o ópio do povo”, foram construindo com o beneplácito de todos um mundo de impunidade. A empresarialização do mundo das transferências dos jogadores de futebol, com o seu cortejo longo e variado de comissões e outros negócios, não era mais do que mais uma deriva do modelo, gerando um excedente artificial, uma espécie de pirâmide que algum dia iria tremer, restando a indeterminação de saber quando, como e por força de que impulso isso iria acontecer.

Está por fazer uma avaliação plena do significado da chegada das SAD (Sociedades Anónimas Desportivas) ao mundo do futebol. Muita boa gente pensou que essa evolução, com as regras que isso implicaria de transparência e regulamentação, particularmente para as cotadas em bolsa, traria irreversivelmente uma onda de profissionalização na gestão. Ou seja, estimaram as boas almas que os aspetos mais obscuros do velho futebol seriam engolidos pelas boas práticas da gestão, fazendo tábua rasa dessa herança. Os fatos impecáveis de alguns dirigentes das SAD anunciavam alguma coisa, os gestores iriam tomar conta do processo, mas a fazer fé nos inúmeros processos judiciais que foram sendo levantados, nas diligências falhadas para a comunicação social ver e na suspeição que não desapareceu tudo isso não passou de uma ilusão.

Claro que a comparação com idêntico fenómeno lá por fora carece de contextualização. Em países como o Reino Unido, o fenómeno representou sobretudo a desenfreada internacionalização do financiamento do futebol. Quantidades avultadas de capital financeiro proveniente das oligarquias russas que emergiram após o Big Bang (reformas dos anos 90) na ex-União Soviética e a leste, de investidores em torno do mundo do petróleo e outras fontes provavelmente menos recomendáveis tomaram posições dominantes em alguns clubes britânicos iniciando por essa via uma outra era. Claro que esses avultados volumes de investimento atraíram à Liga Inglesa os melhores atletas e treinadores e, se bem com algumas reações, algumas até violentas, o velho espírito do soccer aguentou a deriva, pois continuou a ver futebol do melhor.

Num capitalismo dependente e de fraco excedente como o nosso nunca a massa de investimento viabilizado pelas SAD seria relevante e de molde a gerar transformações daquele tipo. O máximo a que poderemos aspirar é do tipo José António dos Santos (Rei dos Frangos), acionista da SAD do SLB, e outros que tais.

A questão interessante aqui a discutir é a da débil ou incipiente capacidade de transformação de velhas estruturas a partir de fórmulas societárias derivadas do capitalismo financeiro. No caso do SLB, à medida que se vai cavando na informação que os processos judiciais trazem cá para fora, mais vamos compreendendo que tudo indica que coexistiriam duas realidades, a da aparente modernização e gestão profissionalizada (no caso do SLB até com a presença na sociedade desportiva de gente ligada ao capital de risco) e a das velhas e anquilosadas estruturas, o velho futebol com os seus vícios e cumplicidades. Não tenho a certeza se a coexistência destas duas estruturas assumiu a forma pura ou se, pelo contrário, o que daí resultou foi uma fusão imperfeita, adulterada, degenerada, nem representando a sobrevivência dos valores mais tradicionais nem a modernização anunciada.

É claro que há questões ainda mais complexas, como a de saber se é possível impor plenamente a lógica da modernização e da gestão profissionalizada a uma realidade que continua a depender da inspiração do goleador, da atenção irrepreensível do defesa, do voo impensável do guarda-redes, do acerto do árbitro e de coisas que tais. É verdade que a profissionalização do treino e da preparação atinge hoje níveis impensáveis, com a escola portuguesa de treinadores a alimentar uma diáspora notável por todo o mundo e que no topo dessa base, cada vez mais “científica”, existe hoje uma coisa chamada liderança. Matéria que é importante por exemplo para compreender o descalabro de Jorge Jesus que vinha de uma liderança empolgante à Flamengo (esperar que isso colaria no SLB de hoje é de uma profunda ingenuidade) ou a dificuldade de afirmação de Nélson Veríssimo, ou ainda para compreender os diferentes modelos Bruno Amorim e Sérgio Conceição.

Mas, em meu entender, quem representa melhor essa terra de ninguém, essa zona cinzenta entre o velho futebol e a modernização ambicionada, é Rui Costa. Existem como sabemos (não muitos) alguns exemplos de futebolistas exímios que se transformaram em excelentes dirigentes desportivos. Consigo lembrar-me de casos (na realidade alemã, é outra coisa) como Beckenbauer ou Rummenigge, Platini deu para o torto, mas tenho para mim que a grande maioria dos casos de dirigentes-antigos atletas sobrevivem apenas em estruturas altamente protegidas, em que não existem exigências de demonstração de resultados e a avaliação de desempenho é uma miragem.

O Rui Costa, que tanto admirava na gestão do jogo e do meio-campo, é simplesmente o produto de uma transformação não bem-sucedida, já não consegue representar nem os valores do velho futebol que seriam necessários para espevitar uma equipa zombie, nem os valores da modernidade organizativa. E assim permanecerá como outras personagens da história, entaladas numa transformação que não se deu, à procura de uma identidade que nunca será encontrada.

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