quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

O DOCUMENTÁRIO DE GEORGINA

 
(Flavia Álvarez Pedrosa, “Flavita Banana”, https://elpais.com)

Não sei se se aperceberam ― embora seja difícil que não o tenham feito, dada a avalanche publicitária em torno ― da existência de um documentário sobre Georgina Rodriguez (“Soy Georgina”), a companheira de Cristiano Ronaldo, na Netflix. A ideia é boa ― “dar-lhe o lugar que lhe corresponde como mãe e mulher” ― mas a matéria-prima é inconsistente para o efeito. O trabalho evidencia muito mais a futilidade e o vazio essencial da modelo e digital influencer (um termo chocantemente pomposo para o que ela realmente é e faz, mas sempre são 24 milhões de seguidores no Instagram) e bastante pouco do que se pretenderia de positivo. Ainda assim, realcem-se os factos de Georgina não evitar (e até explicitar ― “sei o que é não ter nada e o que é ter tudo”) a humildade das suas origens (não obstante a sua visita ao local onde cresceu deixe muito a desejar quanto à sua sinceridade afetiva relativamente aos locais), tentar dar nota visível de um genuíno interesse pelo bem-estar das suas (e dele) crianças (sempre privilegiando coisas como o “contacto com a natureza” num clube privado de cavalos em relação a dimensões mais substantivamente educativas) e acabar por encontrar alguns minutos de filme para dar conta de que também tem alguma atenção (sempre relativamente mais impositiva do que autêntica) aos mais desfavorecidos. Ou a inocência com que declara, num quarto cheio de malas de todas as formas, feitios e cores, que usa pouco um exemplar da Hermès “para não a estragar”... O resto são cenas sucessivas de um quotidiano demasiado fácil, onde as questões pessoais/relacionais não estão presentes que não através de alguns momentos com ligação a Cristiano (e de uma notória subserviência em relação às suas vontades básicas) e com amigos e amigas com quem compartilha, de modo assaz desigual aliás, os seus exóticos ou empanturrantes prazeres alimentares, as suas ostentatórias e compulsivas necessidades de aparência (roupa e joias) e os seus impulsos no sentido de deslocações aéreas (que designa por profissionais) ou motorizadas (em variadas viaturas de milhões de euros) e de escolhas de férias (por exemplo, em vilas com iate, podendo embora não dispor de ginásio porque eles sempre estarão em condições de levar as máquinas para exercício). Uma rapariga que até poderá ser boa gente mas a quem tudo se tornou acessível de um modo quase insultuoso ― “os sonhos tornam-se realidade”, diz; mas não, não é disso que se trata quando se vive com alguém que paga todos os vícios e correspondentes contas.

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