segunda-feira, 23 de abril de 2018

IGNORÂNCIA ESCONDIDA … DOS ECONOMISTAS



(Conceitos mal dominados e medidos pelos economistas o que aconselharia mais moderação na sua manipulação, atendendo sobretudo aos seus efeitos sobre os cidadãos. À boleia de um texto de Jared Bernstein sobre conceitos profusamente discutidos neste blogue.)

O comportamento mais recente da economia americana tem sido analisado no pensamento mais corrente, incluindo o da própria Reserva Federal, como estando em situação de pleno emprego, com as consequências que daí derivam para a política económica e monetária em particular. No momento particular de uma descida significativa de impostos financiada pelo aumento do défice público e de algum incremento de despesa pública, o pressuposto de que a economia estará em pleno emprego sugere que o impacto do estímulo versará sobre o aumento de preços e de taxas de juro. Correndo, por isso, o risco de que nem o investimento, nem o emprego, nem o salário real possam aumentar.

Mas como Bernstein alerta no Washington Post (link aqui), ninguém sabe ao certo que taxa de desemprego (a chamada taxa natural de desemprego) corresponde ao putativo pleno emprego e muito menos existe uma medida consensual do produto potencial da economia americana. Se a economia americana estivesse de facto na sua taxa natural de desemprego (a mais baixa taxa consistente com a estabilidade dos preços), então a taxa de inflação deveria estar a reagir no sentido ascendente. O que não está a acontecer.

O que isto quererá dizer é que há significativas margens de erro nos cálculos que as instituições de referência realizam da taxa natural de desemprego e do nível de produto máximo potencial da economia. O que é uma grande salsada. Mas o problema dos americanos é dos americanos, aparentemente não nos diz respeito. O verdadeiro problema é que a ortodoxia europeia baseou o cálculo do famigerado défice estrutural em função do produto potencial da economia e até o levou ao nível de tratado, nas barbas dos sociais-democratas que devem ter ouvido “estrutural” e achado que era algo de científico. Por outras (tristes) palavras, um conceito fundamental para a vida dos europeus, com consequências sérias sobre o seu nível de bem-estar material, dado o seu impacto nas políticas restritivas, não é plenamente conhecido pelos economistas que na prática o impuseram. Não são observáveis e o seu cálculo respira margem elevada de erro por todos os poros. Brilhante … esta ignorância escondida, nas nossas barbas.

Sem comentários:

Enviar um comentário