sexta-feira, 20 de março de 2020

DECISÕES SIMBÓLICAS E INTERROGAÇÕES



(A dimensão e alcance da tragédia italiana continuam a perturbar-nos e, irremediavelmente, a despertar todas as comparações possíveis, das mais mórbidas às induzidas pelas diferentes sensibilidades matemáticas. Simultaneamente, a nível da União Europeia uma decisão importante e simbólica foi tomada. Foi e ainda bem, mas seria necessário um contexto desta gravidade para a celebrarmos?)

Os números diários de Itália agitam brutalmente as nossas inquietações. Não há paninhos quentes que suavizem esse impacto que a informação global nos vai trazendo. As incidências epidemiológicas não se observam em simultâneo. Estamos em diferentes pontos das curvas epidemiológicas e daí que as comparações sejam inevitáveis. O que justifica uma pandemia tão agressiva num país que amamos por mais angústias que a sua deriva política e populista nos tenha angustiado nos últimos anos?

Do que tenho lido há duas razões (não médicas ou clínicas, porque ainda não li nada de robusto quanto às modalidades ou estirpes com que o vírus se apresentou em Itália) que podem estar a justificar a extensão pandémica.

A primeira prende-se com o facto do surto ter irrompido a partir das regiões mais ricas de Itália. Existe abundante evidência de que, mal a gravidade do surto foi pressentida e em jeito de antecipação dos confinamentos sucessivamente mais graves houve uma massa significativa de população que zarpou das suas residências para as suas segundas casas ou para buscar a solidariedade de famílias residentes noutras regiões italianas. Se o epicentro tivesse acontecido numa região mais pobre provavelmente essa disseminação não teria acontecido.

A segunda razão surge a partir de testemunhos de população italiana, segundo os quais as regras de distanciamento e isolamento social foram deficientemente cumpridas já depois dos confinamentos e quarentenas mais graves, num paradoxo identitário do modo de convivência italiano que baixa a guarda perante uma ameaça desta natureza.

São duas razões de peso, de natureza socioeconómica. Provavelmente, teremos de acrescentar uma terceira que decorre do nível baixo de despistagem da presença do vírus e que terá conduzido a comportamentos inconscientes e de risco antes dos confinamentos.

Ao mesmo tempo que a tragédia italiana nos impacta brutalmente, para as bandas de Bruxelas foi tomada uma decisão histórica. Foi finalmente suspensa a regra associada ao chamado tratado orçamental. Tal gradação em poucos dias foi visível também aqui neste caso. Passamos rapidamente do desinteresse inicial de Lagarde, à decisão de determinadas despesas não contarem para o défice e finalmente para a decisão extrema de haver uma moratória de controlo de défices, deixa de existir durante um determinado tempo. Mas mesmo assim, a supressão dos limites do défice pode conduzir a um salve-se quem puder, com os países a recorrer a endividamento na medida das suas possibilidades de acesso ao mercado. O que pode gerar sérios problemas futuros, se a Alemanha continuar a não aceitar a partilha de risco. E não esqueçamos que a tragédia italiana acontece numa economia com uma dívida colossal.

Cheira-me que infelizmente ainda iremos voltar a falar destas coisas e não será pelas melhores razões.

Não posso deixar de pensar quanto sofrimento e penosidade foi necessário aguentar para que a chamada regra dourada do equilíbrio orçamental deixasse de ter sentido e ser suspensa. E talvez a grande razão para isso seja a própria natureza da pandemia. Ou seja, em palavras talvez cruéis, na crise das dívidas soberanas houve quem beneficiasse claramente da penosidade dos outros e salvo os seus ativos a tempo. Agora, a penosidade toca a todos, mas não estamos todos nas mesmas situações para a aguentar. 

(Correção de gralhas em 21.03.2020)

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