segunda-feira, 30 de março de 2020

A REINVENÇÃO NATURAL DAS CIDADES



(Já vimos de tudo nesta pandemia vivida a partir de cá. Já pressentimos que urbanos em desespero procuravam oportunisticamente o para eles esquecido interior em busca de isolamento, precipitando aliás, em alguns casos, a disseminação territorial indesejada. Mas há também a reinvenção do urbano, forçada é certo, e não sabemos se portadora de consequências mais duradouras ou se condenada a regressar à inércia de antes.)

A crise de confinamento, contenção e paragem de uma grande parte da atividade económica gerada pelo Coronavírus tem-nos trazido uma espécie de contrafactual de ilusão. Por razões trágicas e à medida que todos procuramos gerir o melhor possível os medos e interrogações, vamo-nos apercebendo de como poderia ser o padrão ambiental das nossas vidas, acaso o modelo produtivo fosse outro e sobretudo se a intensidade de utilização dos recursos físicos e naturais fosse também outro. Mas é uma pura ilusão, a perspetiva de um passado ao qual só uma tragédia de grandes proporções nos poderia reconduzir. O mundo vai ter enormes perdas de vidas humanas, é certo e muitas das famílias por esse mundo e também por cá conservarão a memória de um acontecimento que precipitou a partida de muitas das nossas referências. Mas os restantes recursos das economias não vão ser destruídos. As infraestruturas, os recursos físicos e naturais, o capital fixo e de equipamento das empresas e das organizações em geral, as ideias e o conhecimento, permanecerão. Parte do emprego será destruído, mas excetuando o que permanecerá desencorajado para sempre, pode ser recuperado, se os estímulos fiscais e monetários estiverem à altura da enormidade do problema.

Por conseguinte, é de facto impressionante assistir ao recuo dos níveis de poluição do ar e de rios, todos nos espantamos com a súbita transformação dos canais de Veneza e muitos outros traços de mudança para o ambiente cristalino por agora nos alertam para as delícias de um passado já relativamente longínquo. Mas a recuperação expansionista trar-nos-á de novo os efeitos do congestionamento e não podemos ignorar que a emergência climática resultou de uma enorme acumulação de efeitos no passado.

A resolução do problema ambiental por via da paragem da atividade económica é, como todos sabemos, uma ilusão passageira e não aponta para um novo rumo definitivo. Mas relembra-nos que a solução está na reconsideração do modelo de crescimento para recriar um novo modelo de desenvolvimento. Está na reorganização do trabalho para nos devolver a ritmos de mobilidade mais saudável, contrariando os seus opostos que também só ilusoriamente geram aumentos de eficiência e produtividade. Está numa utilização mais inteligente das tecnologias de informação e comunicação. Está na reorganização dos mercados e dos processos de produção preparando-os para choques exógenos desta natureza. Está na adaptação dos modelos de consumo e na antecipação de que o emprego não pode continuar a ser assegurado apenas por atividades ou produções não neutrais do ponto de vista das emissões de carbono.

Mas também a organização territorial e o modo como exercemos o nosso direito à liberdade de movimentação no território têm sido por maus e bons motivos impactados pela atual crise. Tivemos ecos nas últimas semanas de gente que redescobriu subitamente o interior esquecido procurando nele refúgio para o isolamento, não sabemos ainda se acompanhados de uma disseminação da infeção nesses territórios já de si vulneráveis. Lemos comentários lúcidos e sábios de gente local que denunciou essa descoberta de última hora. Sei por experiência e saber próprios que uma segunda residência é sempre um equívoco do ponto de vista da pertença a esses territórios, por muita saudade que já tenha da minha ampla janela para Santa Tecla em Seixas-Caminha e esteja roído de tristeza por não partilhar este ano o florescimento das aleluias (e Seixas não é decididamente interior).

Mas assistimos a redescobertas do urbano sem o abandonar. Por todo o espaço europeu e mundial há gente que passou a ouvir os pássaros que não ouvia. Não estou nesse grupo. Melros, rolas e outros pássaros (até de vez em quando um pica-pau) cruzam cânticos com o grasnar das gaivotas e já povoavam as manhãs soalheiras nesta zona de Vila Nova de Gaia. Mas há outros efeitos. De repente as ruas adquirem um outro significado vivencial e talvez a nossa perspetiva e valoração do espaço público mudem quando regressemos aos padrões habituais de densidade e mobilidade.

É claro que nem todos terão a experiência do povoado de Fornelos de Montes em Pontevedra que na noite de 20 de março tiveram a experiência da visita de um lobo que se passeava pelo povoado, talvez perturbado pela estranha ausência dos humanos, ou talvez com fome (link aqui). Neste caso, o lobo regressou e como diz o arquiteto paisagista francês Nicolas Gilsoul (link aqui) se a energia elétrica estivesse cortada de noite outras surpresas haveria. No caso dos pássaros, eles estavam lá, alguns de nós não os ouviam ou pressentiam. Já em 2013, o marxista David Harvey sublinhava que “é hora de adaptar o ambiente urbano ao tipo de gente que queremos ser” (link aqui).

Onde quero chegar com estas informações mais impressivas do que sistemáticas? Há um espaço de oportunidade à nossa espera para a reinvenção natural das Cidades. A emergência climática já nos tinha sugerido essa possibilidade. A tragédia viral reforçará essa sugestão.

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