(Ribeira das Naus, Lisboa)
Migração familiar para
Lisboa para sentir o crescimento do neto Francisco. Oportunidade para usufruir
da luz da manhã de Alcântara, passar pelo meu restaurante de bairro preferido, o
Cova Funda na Alameda (também o Manuel Alegre e família o apreciam), gozar as
delícias de um jardim urbano como o da Gulbenkian e perceber como pontual e lentamente
Lisboa vai recuperando a sua ligação com o rio (pontos para António Costa). Para além disso, ainda deu tempo para mergulhar de novo no génio compulsivo de Amadeo Sousa Cardoso (exposição Sob o Signo de Amadeo na Gulbenkian). É espantoso que, no contraponto entre a ruralidade de Manhufe e o cosmopolitismo de Paris, tenha sido possível aquela década de produção imensa que nos reconforta com o facto de ter sido Português aquele génio.
Mas no meio de toda esta
distensão, o que fica é a contundência do artigo de Pacheco Pereira no Público
de sábado, no qual elabora melhor e refina o argumento já apresentado no Quadratura
do Círculo de regresso de férias na passada quinta-feira.
Cito:
“O meu ponto neste artigo é que o Governo e
os seus propagandistas, ao porem em causa os “direitos adquiridos” quando eles
se referem a pensões, salários, direitos laborais e emprego, estão também a
deslegitimar os outros contratos e a semear a “revolução”. Assim mesmo, a “revolução”,
defendendo uma sociedade em que o Estado e, mais importante, a lei ou a ausência
de lei em nome da “emergência financeira”, não assegura qualquer “princípio de
confiança”, ou seja, os pactos feitos na sociedade, pelo Estado, pelas
empresas, pelas famílias pelos indivíduos. (…)
Ora, eu sou a favor de que se cumpra
o memorando, realisticamente adaptado à mudança de circunstâncias, que se
negoceiem e não se confisquem as PPP, mas que ao mesmo tempo se tenha a mesma
atitude em relação aos outros contratos, procedendo também aí a verdadeiras negociações
e não a dictats, e procurando soluções
que possam manter a “confiança”, como seja, por exemplo, encontrar modos de
transição, diferenciações entre os contratos do passado e do presente, avaliações
de custos e situações.
Ora é isto que o Governo desde o
dia um do seu mandato nunca fez, por ignorância, incompetência, dolo e
ideologia. Tomou um caminho único, defendeu-o como único, acrescentou problemas
novos aos que já tinha, começou arrogante e acabou a andar para trás, para a
frente, para o meio e para cima, tentando remediar o que tinha estragado. Sempre
que contrariado quis vingar-se, garantindo que os que uma decisão do Tribunal
Constitucional protegia iriam pagar um preço ainda maior, se possível, ou
servir de pretexto para punir todos. E desde sempre mostrou desprezo pela lei
constitucional, porque isso lhe permitia soluções mais fáceis, mais imediatas,
até porque os seus alvos eram os que menos poder tinham. O resultado foi romper
o tecido social como ele nunca tinha sido rompido desde o 25 de abril, semeando
a discórdia e a divisão, sem qualquer resultado adquirido e sustentável”.
O artigo vale pelo seu todo
e as citações anteriores destacam apenas algumas nuances do argumento. A referência que o artigo faz da controvérsia
surgida nas redes sociais em torno da nota do jovem deputado comunista que
sugere que esta onda contra o princípio da confiança pode ameaçar outros direitos
como o do direito à propriedade não é o mais importante. O que marca o
argumento de Pacheco Pereira é que se trata da crítica mais global contundente
do pensamento que grassa pelo Governo que conheço. E assim acaba o artigo: “É por isso que
estes meninos estão a brincar com o fogo e depois gritam que se queimaram”.
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