domingo, 7 de abril de 2024

SÁNCHEZ LANÇA-SE NO ABISMO DAS REGIONAIS

 

                                                                (El Español)

                                                                   (El País)

(Por repetidas vezes, elaborei neste blogue reflexões diversificadas sobre a crónica anunciada dos riscos que a estratégia de sobrevivência política assumida por Pedro Sánchez implicava, não apenas do ponto de vista da unidade política espanhola, mas também na perspetiva da própria sustentação da sua liderança. Pactos com formações regionais nacionalistas que aproveitarão todas as entreabertas para combater o sistema e, sobretudo no caso da Catalunha, abrir a porta da independência é mais do que uma estratégia arriscada, é governar permanentemente à beira do abismo, com indeterminação de saber como e quando cairá. A famigerada Lei da Amnistia poderia constituir uma oportunidade de conciliação nacional, uma espécie de reset institucional para outros voos de convivência, mas isso não acontecerá porque escasseia a boa-fé dos possivelmente amnistiados. Com as eleições regionais na Catalunha e no País Basco à porta, toda essa indeterminação está ao rubro, podendo mesmo falar-se de uma dupla indeterminação: qual vai ser, em primeiro lugar, o peso dos nacionalismos independentistas face aos candidatos do PSOE e, em segundo lugar, qual será a nova relação de forças entre essas forças independentistas, Junts per Catalunya de Puigdemont versus Esquerra Republicana na Catalunha e Bildu versus PNV no País Basco. E o que as sondagens vão anunciando antecipam o pior do ponto de vista da estratégia de Sánchez.)

Começando pela Catalunha,tenho de confessar que, embora aprecie a identidade do chamado catalanismo cultural, não consigo compreender os catalães do ponto de vista do seu comportamento político. Não consigo entender a amarração política do Junts e de Puigdemont em particular. Primeiro, as suas origens políticas e ideológicas são uma espécie de filho de pai incógnito, aparentado com o nacionalismo burguês catalão (e que falta nos faz Manuel Vásquez Montalbán para o zurzir). Segundo, entre os nacionalistas é o mais supremacista, podendo por essa via considerar-se um partido racista em relação ao restante dos Espanhóis, com relevo particular para os andaluzes. Terceiro, cavalgando a onda supremacista, o Junts é hoje um partido xenófobo em relação aos imigrantes, quando paradoxalmente se escondeu na recôndita Waterloo europeia para evitar a prisão na sequência do procès. Quarto, não é manifestamente uma força política em que possa confiar-se, com uma permanente atitude de chantagem política e daí que não possa deixar de pensar-se que Sánchez está demasiadamente agarrado ao poder para ter de aturar tal personagem.

Ora, quando se pressentia que a relação de forças entre os independentistas iria cair para a Esquerra, mais confiável, os últimos dados de sondagem revelam uma estranha recuperação do Junts, tendo mesmo determinado que Puigdemont abandonasse a isolada Waterloo (e com nome demasiado simbólico) para se instalar a 30 quilómetros da fronteira, creio que pela zona de Perpignan onde também flutua a bandeira catalã, para intervir mais ativamente na campanha eleitoral.

O sempre lúcido diretor do El Español não hesita em considerar que é Puigdemont que está a comandar a campanha eleitoral na Catalunha, a ponto do atual presidente da Generalitat, Pepe Aragonés, ter colocado no plano do embate político Puigdemont e Illia, candidato do PSOE catalão e provável vencedor das eleições regionais, ao mesmo nível. O diretor do El Español, no seu editorial do El Rugido del León, é impiedoso: “Foi a reabilitação política de Puigdemnt realizada por Pedro Sánchez a responsável por ter retirado esta figura grotesca da marginalidade e irrelevância em que se encontrava na sua quimérica República paralela em Waterloo.”

A recetividade do eleitorado catalão a uma personagem sem envergadura como a de Puigdemont continua a representar para mim algo de estranho e de incompreensível.

No país basco, o velho partido regionalista do PNV, que conseguiu gerir a transição de uma ETA ativa e violenta para a sua extinção, e que é conhecido em Espanha pela sua proverbial capacidade de pactar com Deus e o Diabo se for necessário, enfrenta agora a concorrência da formação política com mais ligações indiretas à ETA, o Bildu. As sondagens mostram que o PSOE não será capaz de obter no País Baco nenhum resultado ao que pode alcançar na Catalunha, e do PP nem se fala, pois está compreensivelmente afastado da cena política nestas duas autonomias históricas. Esta concorrência do Bildu ao PNV não é inocente, pois se o primeiro tem conseguido suster o independentismo com uma hábil negociação do aprofundamento da autonomia (veja-se a autonomia fiscal que a Catalunha pretende copiar), o segundo claramente mais radical pode a todo o momento ressuscitar pela via política o independentismo que a ETA por vias da violência pretendeu propagar.

Não é necessário ser estrela no comentário político para compreender que os dois atos eleitorais podem aprofundar o grande lio em que o PSOE de Sánchez está envolvido. A lei da amnistia pode ter um efeito de ricochete incomportável para o acordo político-parlamentar que sustenta o Governo. A realidade basca não é também facilmente explicável. Um dado recente de inquéritos de opinião mostra paradoxalmente que hoje apenas 13% dos bascos lutaria pela independência, mas conclui-se também que cerca de 70% deles votará num partido nacionalista. O risco aqui implícito, extensivo também à Catalunha, é a luta entre os nacionalismos poder conduzi-los a um maior radicalismo de posições.

Moral da história: continuo a duvidar que o “corto placismo” de Sánchez lhe seja favorável a longo prazo – fazer acordos políticos com forças políticas cujo radicalismo depende cada vez das relações de forças entre as mesmas que o eleitorado determina constitui de facto uma montanha russa infernal.

Governar suspenso permanentemente do abismo não se recomenda a ninguém.

 

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