terça-feira, 24 de maio de 2016

A COLHIDA DO PSOE




(Notas sobre o mais que provável caminho para a temporária, espera-se, irrelevância política do PSOE, lendo as mais recentes projeções eleitorais do 26 de junho em Espanha)

Pedro Sánchez é um líder desenvolto, de uma nova geração política, aparentemente com mais capacidade de estar próximo do eleitorado jovem e que tem uma maneira de estar que poderia dar uma outra imagem do exercício do poder. É verdade que herda um partido não totalmente convencido destas capacidades e a questão regional em Espanha coloca sempre dificuldades ao PSOE, na medida em que, simultaneamente, combater a fratura do Estado e não perder o relacionamento com as forças autonómicas não é tarefa fácil. É verdade também que Susana Diáz tem a Andaluzia a seus pés e constitui sempre uma liderança potencial. A trégua política para eleitor ver foi assegurada e pelo menor por agora Sánchez poderá concentrar-se no 26 de junho, após uma não muito bem-sucedida ginástica negocial para evitar as novas eleições.

Do outro lado da barricada temos um PP liderado por um desajeitado mas afortunado Rajoy, que beneficia de uma maioria sociológica no país que é conservadora e que tem acomodado a sequência de “cada cavadela um ato de corrupção a salpicar o PP”. Beneficia também de uma mais competente intervenção sobre as fragilidades do sistema financeiro (em que o PP estava enterrado até ao pescoço) do que a realizada em Portugal (a coberto da incompetência de quem?) e de uma situação macroeconómica (a dimensão importa!) que lidou bem com a inexistência de governo.

Do outro lado da barricada, temos ainda um CIUDADANOS que dá uma imagem limpa e mais jovem e moderna ao conservadorismo burguês espanhol e cuja expressão política (debilitada face às expectativas nas últimas eleições) constituirá sempre uma aliança política possível para o PP.

Mas os problemas do PSOE não podem ser compreendidos apenas com base na dialética do relacionamento com a dupla PP – CIUDADANOS. A emergência do PODEMOS veio complicar seriamente os problemas do PSOE, porque veio sobretudo retirar-lhe capacidade de capitalização do voto de protesto, particularmente entre os mais jovens. Esse efeito é tanto mais importante quanto mais o próprio PSOE foi também salpicado por alguns processos de corrupção em Espanha e entre a sua nomenclatura continuam a existir personalidades contribuindo ativamente para o denegrir da vida política que favorece o voto de protesto.

E há aqui um paradoxo. A dinâmica do PODEMOS, inorgânica, desestruturada e errática, é certo, embora por vezes hábil dada a agilidade de Pablo Iglésias, a força política do PODEMOS retira voto de protesto ao PSOE mas, simultaneamente, favorece a resiliência do PP e a ascensão do CIUDADANOS. De facto, para o eleitor médio, a ascensão do PODEMOS e da sua dinâmica de protesto à governação é vista como uma grande incógnita. A dispersão dos movimentos que foram acolhidas pelo PODEMOS e que conquistaram vários ayuntamientos de grande expressão em Espanha (Madrid, Barcelona, Valência, Corunha, só para dar alguns exemplos) têm dado sinais de grandes contradições entre si, não favorecendo a extrapolação política de governos locais para uma alternativa de governação à escala nacional.

Sem um PCP à portuguesa e com um PODEMOS menos estruturado do que o Bloco de Esquerda em Portugal, Pedro Sánchez desgastou-se inutilmente numa tentativa de encontrar uma fórmula política à engendrada por António Costa em Portugal. Estava nos astros que CIUDADANOS e PODEMOS são incompatíveis, sob pena de lançarem para o eleitorado sinais que penalizariam as respetivas bases eleitorais. Estou assim inclinado a pensar como o meu amigo Professor Júlio Sequeiros da Universidade da Corunha que Sánchez traçou o caminho para a sua temporária irrelevância política ao renunciar a condicionar fortemente uma governação possível do PP- CIUDADANOS. Até porque a sua base de entendimento com o CIUDADANOS tinha aspetos positivos.

É assim que se compreende o desproporcionado (face à dimensão da segunda) impacto eleitoral do recente acordo eleitoral entre o PODEMOS e a IZQUIERDA UNIDA que, à luz das últimas sondagens, colocam o PSOE apenas como terceira força política. Não é propriamente uma colhida mortal que o PSOE sofre. Mas que está traçada uma irrelevância política não se sabe por quanto tempo começo a não ter dúvidas de que ela pode acontecer.

Projetando tudo isto na Europa do sul, esta possível irrelevância política do PSOE vem no pior momento. Costa e Renzi necessitavam de um PSOE mais forte e com peso político de governação em Espanha para conduzir a sua luta contra a força limitadora do PPE. Tal força seria necessária para discutir com maior margem de manobra uma maior flexibilidade para a resolução do endividamento destas economias. A mais que provável governação PP-CIUDADANOS ou, alternativamente, a entrada num novo período de impasse político em Espanha dificultarão a ação de Costa e de Renzi, sobretudo quando para nossos males o primeiro não terá muito para oferecer em termos de resultados.

Isto está feio.

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