quinta-feira, 12 de maio de 2016

DE TEMER!


(Embora mais sóbria do que o forroboró do Congresso dos Deputados, a sessão do Senado brasileiro que consagrou altas horas da madrugada o início do processo de destituição da Presidente Dilma Roussef lança o Brasil num processo de incalculáveis riscos que mais enraíza a minha perceção de que Portugal está no tempo errado de ligação às suas parcerias naturais no Brasil, depois das peripécias angolanas)

Decididamente, a minha incapacidade, apesar dos meus mais sinceros esforços de compreensão à distância, para entender os meandros da realidade brasileira, é sistematicamente reiterada pela evolução dos acontecimentos. Tudo isto reconhecendo que não morro de amores pela personagem Dilma, apesar de todo o seu passado antifascista, sobretudo pela sua falta de empatia com os Portugueses, que a protagonista não se coíbe de revelar em todas as oportunidades.

Ainda que o judicialismo brasileiro tenha aparentemente ocupado um lugar mais recuado no palco das atenções mediáticas e corrigido alguma trajetória de enviesamento com a sua ofensiva dirigida a Eduardo Cunha, um outro passarão da política brasileira, e a hoje anunciada autorização do Supremo da investigação ao líder da oposição Aécio Neves. Isso dá ao ambiente um ar mais saudável. Mas não se compreende bem os reais motivos do “impeachment” de Dilma, sobretudo com Michael Temer na sucessão para a formação de governo. O El País de hoje invoca um deputado da Baía que considera que o dito é o “típico mordomo de um filme de terror”. É claro que se todos os passarões da política brasileira fossem objeto de abordagem, uma ampla infraestrutura seria necessária para acolher a passarada sob anilha. Ainda que a narrativa do golpe me pareça bastante esquemática, a formação de governo por parte de Temer poderá esclarecer a que é que corresponde a destituição sem que se perceba que alternativa política estável a saída de Dilma poderá representar. Estaremos, como Lula o sugeriu à entrevista (aqui comentada) ao The Intercept, numa operação económica meramente instrumental para afastar o PT da linha da governação, com tudo o que isso pode representar de inflexão dos avanços distributivos que sobretudo nos tempos de Lula foram introduzidos? Ou será que entre os votos no Congresso dos Deputados ou no Senado haverá a perspetiva instrumental de procura de defesa de melhores condições de defesa política para com irregularidades no cartório sob investigação?

Por informações que tenho de empresários portugueses com experiência de investimento no Brasil, haveria entre a classe empresarial algum cansaço provocado pela mais do que declarada sobretaxa remuneradora do financiamento do PT, podendo discutir-se se essa sobretaxa servia de facto o Partido ou se ficava encalhada em alguns bolsos privilegiados. Em tempos de dificuldade económica, uma sobretaxa de 7 a 10% causa sempre incómodo à rendibilidade.


Quanto ao PT ele parece estranhamente liberto para retomar a sua natureza de partido de massas e ocupação preferencial da rua como meio de luta política. A incerteza em que o Brasil vai mergulhar, determinada sobretudo pela falta de respaldo popular de Temer, vai ser um teste à pretensa emergência de uma classe média na sociedade brasileira, esperança de reforço de valores democráticos em qualquer economia emergente. Até à possibilidade real de novas eleições, interessa sobretudo avaliar em que medida o anunciado governo liberal de Temer irá contribuir para a formação de uma alternativa mais estável. Mas pelo que se sabe do passado político do vice-Presidente de Dilma, será mais de “temer” do que esperar algo de promissor.

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