segunda-feira, 8 de julho de 2019

AS LONGAS UNHAS DE ROSALÍA



(Confesso que não tenho ainda uma posição suficientemente fundamentada sobre a ascensão de Rosalía ao estatuto de ícon da cultura popular urbana espanhola. Compreendo a reação dos “flamenguistas” mais puros que desconfiam da sua matriz identitária, mas qualquer que seja a origem da sua força expressiva, é difícil ficar-lhe indiferente.)

Admito que se estivesse presente no NOS Primavera Sound deste ano talvez já tivesse amadurecido uma avaliação mais consistente. Não estive e por isso falta-me a perceção da química no palco.

Pode Rosalía ser um produto de uma laboriosa produção de uma personalidade, com riscos de ser mais um exercício de alimentação da efemeridade que nos rodeia, preparada ao milímetro e estruturada em torno da sensualidade que brota da sua postura e do seu corpo que respira energia? Não me atrevo a negar essa possibilidade. Mas a artista espanhola interessa-me seja na perspetiva da construção dos mitos urbanos do nosso tempo, seja do ponto de vista do choque (não arrisco ainda escrever interpenetração) com culturas mais tradicionalistas como é a do flamengo e do seu entorno.


Para já, à medida que os seus “singles” se vão sucedendo com avultadíssimo investimento de produção de vídeo clips a acompanhar a sua edição, Rosalía traz consigo uma intrépida vontade de marcar um terreno de afirmação do seu mundo. Essa matriz alcança uma projeção até agora não conseguida na sua canção “Aute Cuture”, na qual se pressente a afirmação de um universo oposto ao da “haute couture”, reivindicando a beleza a partir de outros contextos, que não necessariamente o da sofisticação parisiense ou de outra qualquer capital da moda. Um pequeno excerto:

Tocando
Nas rodas de flamenco e nos Hamptons
Sangria e vermelho Valentino
No hotel cinco estrelas e nas quebradas”.

E as unhas, as suas longas e controversas unhas, já elas próprias se transformaram em virais, e merecedoras de leituras e interpretações com as mais variadas origens e universos disciplinares (veja-se aqui um artigo recente no El Español sobre as ditas). Imagino que não seja fácil ao pensamento feminista e aos seus múltiplos quadrantes integrar uma personagem com estas características e sobretudo com este domínio dos símbolos de afirmação

Escapará Rosalía à efemeridade que marcou alguns dos ícones da cultura popular urbana?

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