quarta-feira, 31 de julho de 2019

ESPANHA: OS MAUS DA FITA

(Voz de Galicia)


(A vinheta humorística de Pinto&Chinto traz-nos uma Espanha de partida para férias ainda sem orçamento para 2019 e às voltas com o labirinto político em que está mergulhada na sequência das últimas eleições legislativas. Neste tipo de situações, não me atrevo a antecipar com que ânimo os espanhóis estarão a preparar malas, viaturas e a habitação que se deixa por uns tempos.)

Estes longos períodos de espera para dar uma sequência concreta a um ato eleitoral em termos de governação representam sempre uma faca de dois gumes para o bem ou mal da democracia. Por um lado, podem gerar inquietações, indeterminação quanto baste, diferimento de decisões de vida, de consumo, de investimento, o que pode ser negativo para a conjuntura económica, mas positivo do ponto de vista de um desassossego democrático virtuoso. Mas, por outro lado, podem gerar uma perigosa indiferença. Afinal isto vai funcionando, existe um governo em funções ainda que debilitado e manietado na sua ação, as empresas e os serviços públicos não deixam de existir por isso. Daí à perceção da dispensabilidade da barganha política pode ser um passo e isso é nefasto para a democracia.

Do meu ângulo de observação, as conversas com alguns amigos espanhóis (essencialmente galegos) e o acompanhamento da imprensa espanhola mais representativa, tenho-me dedicado a tentar identificar quem são os destinatários principais dos vitupérios dirigidos a políticos no ativo e com poder de decisão culpabilizando-os do impasse criado.

Como seria previsível, esses destinatários variam muito consoante a origem desses vitupérios.

Situemo-nos no ponto de vista da opinião pública espanhola mais nacionalista, ciosa do “espanholismo”. Para esse quadrante, os maus da fita são seguramente Pedro Sánchez e algumas lideranças autonómicas, visando sobretudo o primeiro pela ousadia de admitir que o seu governo possa ser decidido pelo voto dos que, segundo a sua opinião, querem desconstruir a velha Espanha. O comportamento político de Sánchez facilita o alvo. De facto, muitas indefinidas negociações que Sánchez promove com autonomistas e independentistas vão muito para além do seu modelo de Espanha das nações ou regiões, matéria que sobretudo depois da deriva catalã provoca pesadas indigestões nos que prezam a unidade da Espanha. Curiosamente, o PODEMOS de Pablo Iglésias (por mais atribuladas que estejam as suas querelas internas) suscita menos azedumes e vitupérios políticos do que o próprio Sánchez.

Do lado dos socialistas, o mau da fita tem variado em função das suas próprias negociações de acordos parlamentares ou de governo. Rivera, líder do CIUDADANOS, sobretudo a partir do momento em que guinou claramente à direita e rejeitou qualquer conversa com o PSOE, foi quem atiçou os comentários mais agressivos. De certa maneira pelo seu próprio comportamento e pelo que induz no PP de Pablo Casado, foi Rivera que abriu a porta ao VOX do ponto de vista de acordos de governo. Ultimamente, à medida que Pablo Iglésias do PODEMOS conduzia as negociações com o PSOE como se de uma guerrilha urbana se tratasse, é claramente o mau da fita para o PSOE.


Resta a perspetiva de uma direita mais esclarecida, que eu costumo associar ao diário on line El Español e em parte ao El Mundo. Apesar de eu próprio encontrar similaridades óbvias entre o estilo do El Español e do Observador, arrisco-me a avançar com a ideia de que ideologicamente não se trata de “direitas coincidentes”. Diria que no Observador residem mais elementos de uma direita “alt-right” do que no El Español. Neste último, predomina uma visão modernizante da economia que tendo a associar ao modo como as correntes Opus Dei estão enraizadas na economia espanhola. Ora para o El Español, representado sobretudo pelo pensamento do seu Diretor, Pedro J. Ramirez, antigo jornalista do El Mundo, os resultados apontam inequivocamente para a necessidade de um acordo PSOE-CIUDADANOS, permitindo o ajustamento do PP e colocando na defensiva os independentismos. Em absoluta coerência com os primeiros comentários de Pedro J. Ramírez sobre os resultados das eleições espanholas, o jornal tem identificado Rivera como o mau da fita por se ter esquivado a esse compromisso pela estabilidade política em Espanha. E não têm sido meigos. É uma posição que ganha progressivamente mais adeptos. É o caso do meu amigo Ernesto Pombo da Voz de Galicia que não hesita em invocar o pensamento de um dos fundadores do CIUDADANOS, que prezo bastante, o constitucionalista Franscesc de Carreras, para classificar Rivera como alguém que já foi um “jovem maduro e responsável” para se transformar num “adolescente caprichoso”. Os espanhóis não brincam com estas coisas e chamam às coisas pelos seus nomes, sem subterfúgios.

Com alguma surpresa para mim, o PP tem estado relativamente á margem dos maus da fita. Pablo Casado parece ter aprendido com a queda eleitoral.

Entretanto, já com as férias a clamar por banhos e repouso, os bascos mais radicais afrontam a opinião pública espanhola recebendo em ombros alguns dos presos ETA libertados e aparentemente sem arrependimento. É mais uma acha para a fogueira que um dia destes queimará alguém.


Finalmente, pelas bandas da Galiza, o líder da Xunta de Galicia, Alberto Núñez Feijoo, em pose de estadista e já a velar pelas futuras eleições autonómicas nas quais, se se apresentar, enfrentará uma dura oposição do PSOE, encontrou-se com a jovem e promissora militante do PSOE galego e alcaldesa da Corunha, Inés Rey, para desbloquear projetos estratégicos pendentes naquele município.

Talvez as férias de Sánchez sejam mais complicadas do que as de Marcelo. O espectro de novas eleições fará girar a roleta, embora o sempre acusado de falta de imparcialidade centro de sondagens espanhol CIS desse ontem a maioria absoluta a Sánchez acaso houvesse novas eleições.

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