quinta-feira, 10 de maio de 2012

PORTUGAL NÃO É A GRÉCIA…

Muitos dos nossos responsáveis políticos enchem recorrentemente a boca de um “Portugal não é a Grécia” que simultaneamente lhes alivia a consciência e o fardo ou, numa pior hipótese, permite ignorar ou fingir. A ver se nos entendemos, e com toda a frontalidade: estará Portugal assim tão melhor do que a Grécia? Não poderá mesmo estar, de algum modo, pior?

O assunto tem pano para mangas mas recorro ao mais recente “Global Financial Stability Report” (“The Quest for Lasting Stability”) do Fundo Monetário Internacional (Abril 2012) para sobre ele sugerir um exercício, quiçá algo simplista e redutor, que aponta para uma resposta perturbadora àquelas questões – abrenúncio!


O quadro abaixo ajuda a explicar (clicar sobre para melhor leitura). Concentremo-nos nos cinco países que insultuosamente foram batizados de “PIIGS” (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) e nos níveis das respetivas dívidas (em percentagem do PIB) por setores institucionais. As cores vermelha, amarela e verde indiciam o convencionado (no caso, valores em intervalos de gravidade comparativa face ao conjunto dos países desenvolvidos e para o período 1990/2010).

Foquemo-nos no tal Portugal-Grécia: três vermelhos e um verde para nós versus um vermelho, um amarelo e dois verdes para os helénicos. Ambos os países apresentam uma forte dívida pública (maior a grega) e instituições financeiras relativamente pouco endividadas, mas a verdadeira diferença está na debilitada situação das famílias e das empresas portuguesas face às suas congéneres gregas. Com as inerentes repercussões negativas expectáveis no tempo em termos de condições de vida das pessoas e de capacidade competitiva das empresas.



Será assim? Será possível? Sim, se afastarmos por ora “technicalities” que tornariam mais complexa a análise mas poderiam introduzir ajustamentos analíticos de alguma relevância – como, por exemplo, a maior descapitalização das empresas gregas, a maior debilidade patrimonial das famílias gregas, a situação mais embaraçosa da Grécia no contexto da Zona Euro, os riscos do seu abandono da moeda única ou o impasse político e a agitação social que por lá impera. Sobre esta última, dizia-me esquematicamente um amigo: enquanto os gregos lutam nas ruas pela manutenção de regalias que foram conquistando, os portugueses poderão vir a ser forçados a um dramático combate a um empobrecimento incompreendido. De um ou outro modo, e tudo somado, a fria objetividade dos números é indisfarçável e o alerta aí fica (confirmado também pela nitidez do gráfico seguinte).


Voltarei necessariamente a este assunto e a outros que lhe estão adstritos. Enuncio dois:
·         como temos vindo a sustentar neste espaço, é altamente deficiente (para dizer o mínimo) o diagnóstico das causas da crise da dívida soberana na Zona Euro – o alegadamente irresponsável comportamento dos governos apenas colhe dominantemente no caso grego, estando a raíz do problema muito mais centrada numa insustentável acumulação de dívida privada no caso dos restantes países da periferia europeia;
·         a Espanha justifica uma especial atenção e aprofundadas incursões, revelando um perfil que se aproxima de Portugal (descontada a devida diferença de escala) mas é acompanhado da relativa implosão de um sistema financeiro que parecia poderoso – e porque me inclino para considerar que a bolha imobiliária faz parte do problema mas não se confunde com o dito, assim como também a gestão das autonomias, localizo o essencial num processo de recomposição do capitalismo internacional e no correspondente esgotamento de uma plataforma de segunda ordem outrora significativa...

Sem comentários:

Enviar um comentário