Às voltas com a preparação da minha intervenção no ciclo
de debates “Políticas Públicas e Ordenamento do Território 2014-2020” do
Instituto de Ciência Sociais (Lisboa) no dia 15.05.2012, tenho vindo a
mergulhar com mais atenção nos materiais da estratégia europeia Europa 2020. Não
vou insistir aqui no tópico crucial dos atrasos de reflexão sobre o tema em
Portugal, sobretudo pelo que ele anuncia de processo altamente centralizado (diria
quase que secreto, embora a palavra esteja hoje bastante atropelada pelos
acontecimentos mais recentes) de preparação do próximo período de programação. Processo
altamente centralizado que continuará a marginalizar os territórios reflexivos
em Portugal, em flagrante contradição com a marca “place-based” que atravessa em grande medida a atual reflexão
europeia.
Foco aqui a estratégia Europa 2020 na medida em que muito
dificilmente a tão exigida, e agora consentida, Agenda de Crescimento para a UE
poderá afastar-se das principais dimensões definidas por aquela estratégia, aliás
em avanço de programação bastante considerável, com implicações claras no novo
ciclo de políticas de coesão que tem de ser construído.
Mas o que me espanta é que a segmentação da Comissão
Europeia acabe por colocar agenda tão importante de um modo quase marginal à
necessidade de construir uma transição consequente para a crise recessiva em
que larga parte do território da UE se encontra mergulhado. É muito comum a um
certo discurso económico, sem qualquer sensibilidade à dimensão estrutural do
desenvolvimento para além do blá-blá
do mercado interno, projetar o futuro apenas com um conjunto de indicadores de
chegada. A insensibilidade estrutural significa quase sempre ausência de
qualquer projeção temporal da estrutural, ignorando a durée da transição. E não há futuro que se prepare estrategicamente
sem transição consequente. É um princípio universal da economia do desenvolvimento
e, por maioria de razão, na situação atual, dissociar a Europa 2020 da solução
global para potenciar uma recuperação consistente equivale a produzir discurso
celestial, tão longínquo face às preocupações de hoje do cidadão europeu. Combinar
tudo isto com atrasos nacionais de reflexão na preparação do próximo período de
programação pode ser trágico e uma espécie de Estratégia de Lisboa II, ou seja
mais uma retórica sem qualquer relação coerente com os desafios de cada país.
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