sexta-feira, 11 de maio de 2012

ENTRE CRIMES E ESCAPADELAS…

E o que está passando na banda de cá? Talvez ajude este pequeno apontamento em torno de exibições desajeitadas, manobras de diversão, abusos de poder, atentados ao Estado democrático, intuições incompreendidas ou improcedências políticas. Os pormenores abaixo, retirados de algumas capas de jornais destes dias, aventam várias hipóteses para que o leitor possa enfrentar a charada de qualificativos que acima proponho. Porque o jogo propriamente dito, esse, começa a tornar-se irresolúvel…







Abstraindo das brincadeiras de mau gosto do presidente do ACP ou de brincadeiras perigosas envolvendo espiões – para não mencionar a morte de feriados civis e a possível ressurreição de feriados religiosos em nome de uma produtividade anunciada –, foquemo-nos na dimensão política “tout court”. Num dos seus recentes comentários na TVI 24, Constança Cunha e Sá disse o essencial sobre a respetiva e estrita conjuntura.


Retenham-se algumas frases fortes, agrupadas em seis tópicos:
·         É muito grave que o Governo mande para Bruxelas um anexo à socapa que é conhecido pela Assembleia da República através de um jornal diário.
·         A explicação [de Vítor Gaspar] é surrealista (…).Eu não ia incomodá-los com estas previsões porque daqui a quinze dias ou daqui a três semanas, aí sim, vamos ter previsões sobre o desemprego e essas sim é que vão valer porque vão ser muito mais violentas do que estas. Isto é uma coisa absolutamente extraordinária (…) e repõe completamente em causa a imagem de seriedade que este ministro tinha.
·         A verdade é que se tem visto, nos últimos tempos, um choque cada vez maior entre o Governo e o Partido Socialista. Eu penso que com altas responsabilidades da parte do Governo. (…) Das duas, uma: ou é uma ausência total de estratégia ou é uma estratégia completamente irresponsável. Porque a maioria, quando sai lá para fora, leva sempre na malinha, leva sempre na lapela o consenso (…). Chega cá dentro, esquece-se do consenso e faz o que quer e consegue alienar esse consenso. E de facto esse consenso está à beira de ser quebrado.
·         O episódio de hoje à tarde, portanto o projeto de resolução apresentado pela maioria (…) é também uma fantochada (…). Então o PSD apresenta hoje umas medidas para o crescimento depois de, há quinze dias atrás, ter chumbado as medidas para o crescimento da adenda do Partido Socialista? Isto faz algum sentido? Isto demonstra um enorme desnorte deste Governo. Agora perceberam tarde e a más horas que de facto vai ser necessária uma adenda.
·         Mas também é importante saber o que é que o Partido Socialista vai fazer agora. Se vai ou não levar o Documento de Estratégia Orçamental ao Parlamento, como chegou a dizer que ia (…) e o que é que fazem: se chumbam este Documento de Estratégia Orçamental. Antes de falarmos do orçamento do ano que vem, convém perceber o que é que o Partido Socialista vai fazer com o Documento de Estratégia Orçamental. Porque o Partido Socialista também diz muita coisa mas depois acaba sempre por votar no essencial. Portanto, vamos ver.
·         Já no tempo de Cavaco Silva, quando entramos para a Comunidade Europeia, éramos muito bons alunos. Por isso é que destruímos a agricultura, as pescas, a indústria, etc., com o resultado que se vê. Agora continuamos a ser muito bons alunos e, portanto, fomos os primeiros logo a mostrar trabalho, a mostrar serviço e a votar o tratado orçamental. E a verdade é que eu acho que o Partido Socialista cometeu um erro ao ter votado favoravelmente o tratado orçamental – vai muito mais longe do que o memorando.

Só que nada de tudo isto acaba por ser, ainda, o que verdadeiramente releva. Claro que há diferença entre o absurdo e o patético, o estranho e o grave. Mas não será nada disso que realmente fará a diferença no final do dia desta fase decisiva da nossa vida coletiva. O que importa, o que vai importar cada vez mais neste jogo de sombras que tem nos “mercados” o prato principal (com uma pitada qb de “Europa connosco 2.0”?), é o que assinalei na emaranhada primeira página do JN de ontem (ver abaixo): “Governo prepara novo aumento de impostos”. A explicação do jornalista autor da peça (Luís Reis Ribeiro) é assim sintetizável: “Em apenas um mês, entre a terceira avaliação ao programa de ajustamento e o fecho do Documento de Estratégia Orçamental, as Finanças reviram em alta a receita com impostos diretos no período de 2012 a 2015 [‘mais 3855 milhões de euros em impostos do tipo IRS e IRC face ao que ficou inscrito nos quadros da troika’].” E se, na sequência, um comunicado do Ministério das Finanças já veio garantir que não haverá aumento de impostos, o “cadastro” de incumprimento que o mesmo ostenta e as avassaladoras incertezas que nos rodeiam levam a que uma pergunta se imponha: e pode?


No último “Expresso da Meia-Noite”, José Castro Caldas diagnosticou o problema de Gaspar de modo cristalinamente interdisciplinar: “Está também a ficar à vista que essa estratégia nem sequer produz os resultados mais imediatos a que se propõe: a redução do défice e a redução da dívida. O que é que falta para descobrirmos que as receitas fiscais estão a diminuir a uma taxa de 5% em termos homólogos quando deviam estar a aumentar de acordo com o OE? O que é que falta para descobrirmos que as despesas não estão a reduzir-se à taxa prevista no OE e que, pelo contrário, algumas relacionadas com as prestações sociais estão a subir de uma forma que não podia deixar de ser? O que é que falta para descobrirmos que este OE vai ter que ser sujeito a uma nova revisão antes de o ano acabar? O que é que falta para descobrirmos que isto está a falhar?” Acrescentando acerca do novo PEC, agora chamado Documento de Estratégia Orçamental: “Isto é escrito com um certo estado de espírito de negação da realidade, é um exercício que consiste em: o que é que seria preciso acontecer, quais seriam as condições necessárias, para que aquilo que eu quero se produzisse. Não é um exercício de previsão, é um desejo. E aquilo que era preciso acontecer não está a acontecer manifestamente.”

Pois é aqui que a porca torce o rabo! E pode ser mesmo aqui, também, que a coisa venha a provocar dor a sério e/ou a pôr-se feia como nunca…

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