sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

ELOGIO DA NAVEGAÇÃO À VISTA

São já inúmeras as vezes em que tenho neste espaço valorizado, e até louvado, as posições assumidas por José Pacheco Pereira (JPP) no debate público nacional. Considero-o um dos poucos verdadeiros intelectuais da nossa praça e tenho por ele a mesma admiração que o meu colega de blogue ainda recentemente revelou ao caraterizá-lo como “lúcido e implacável” (não glosarei por ora em torno do desencontro que manifestamente permanece entre JPP e as posições do “Observador” (e, em especial, do seu principal mentor e “ideólogo” José Manuel Fernandes), sendo certo que o essencial do mesmo radica menos em enormes diferenças de fundo e mais em histórias pessoais que foram ganhando lastro desde há décadas.

 

Dito isto, o meu ponto de hoje é o de que sempre haveria de chegar o dia em que aqui tivesse de apontar a JPP um dia mau. E esse foi aquele de há dias atrás em que se pronunciou por uma compreensiva complacência em relação à remodelação frouxa que António Costa realizou no início do ano (inclusivamente contra a leitura expressa do Presidente da República), assim se garantindo em orgulhoso isolamento contra o resto do mundo (como gosta e procura cultivar) mas assim se colocando também, objetivamente, do lado do imobilismo com que o primeiro-ministro aborda algo que considero como de uma desejável centralidade no sentido da transformação e da mudança estrutural na política portuguesa. Neste quadro, e porque a fala de JPP foi, a meu ver, especialmente deslocada e infeliz, opto por remeter o leitor para a íntegra da mesma com um sublinhado forte quanto à discordância que ela me merece e à desresponsabilização que ela autoriza junto daqueles em quem os portugueses depositaram, com rara expressão de confiança, os seus destinos.

 

Coloquemo-nos no papel do primeiro-ministro: o primeiro-ministro está perante uma conjuntura nacional e internacional complicadíssima. Que, ainda por cima, é cumulativa porque já vem dos anos anteriores. Tem, apesar de tudo, quando olha para a realidade, uma performance económica e financeira razoável, eu não direi mais do que isso mas razoável. Não é aí, aliás, que se centram as críticas, o que também é interessante porque seria previsível que, em muitos aspetos, a Direita ou até o PSD tivessem aí muita coisa para criticar; mas não tem. Tem um pessoal político e uma escolha de pessoal político de facto muito má; e aí ele tem uma grande responsabilidade porque há uma desertificação muito significativa das pessoas disponíveis para ir para a vida política e, ao mesmo tempo, ele próprio não quer sarilhos. Repare, há uma atitude no António Costa, que no fundo todos os primeiros-ministros têm tendência para ter, que é: eu estou perante um período complicadíssimo, eu tenho por um lado pressões sobre o PRR, para começar investimentos e fazer isto e aquilo e tenho ao mesmo tempo um governo fragilizado por estes processos; e, portanto, eu vou seguir uma atitude de recuo, que é a chamada prata da casa.

Ou seja: eu penso que o primeiro-ministro, em todo este processo, tem privilegiado uma coisa, pessoas que rapidamente são capazes de dar continuidade às políticas. Porque uma remodelação profunda do Governo ia de novo por tudo na estaca zero. E as críticas que agora se fazem por ele não ter remodelado de fundo iriam ser de outra natureza. Porque a maioria das críticas são inteiramente conjunturais, destinam-se em muitos casos a criticar; há uma ecologia muito agressiva hoje, quer da comunicação social quer da Direita radical não partidária, que critica por um lado ou por outro. Eu quando ouço as críticas, penso: ah, está bem mas podiam dizer exatamente o contrário: o primeiro-ministro não falou, mas já devia ter falado; quando ele fala, não disse aquilo que a gente esperava que ele dissesse; fez isto ontem mas devia ter feito hoje; fez isto hoje, devia ter feito ontem; fez isto neste sítio, devia ter feito naquele sítio. Há uma nuvem de críticas desta natureza. E eu acho que a atitude do primeiro-ministro ― não sei se é boa, se é má, se resulta, se não resulta ― é esta: eu vou tentar apresentar resultados. E para apresentar resultados eu tenho de ter alguma continuidade das equipas; e mais, tenho de ter equipas em que confie e que não me criem sarilhos. (...)

Há uma coisa em política que é muito pouco analisada (ou, quando é analisada, é apenas do ponto de vista do amiguismo): a confiança; existem em Portugal círculos de confiança e a maiores desses círculos de confiança mandam no País. Há um círculo de confiança que vai dos negócios para a política, que vai para cargos institucionais, que vai para as fundações, que vai para os órgãos de comunicação social que é quem manda em Portugal, ninguém tenha ilusões. E manda essencialmente como? Com direito de veto pelas escolhas, mais do que propriamente pelo controlo das políticas ― por estas também porque há linhas vermelhas, em relação aos senhorios, aos salários, às empresas, ao privado e ao público que é suposto que não sejam ultrapassadas, e que o Governo e António Costa não mostram, aliás, nenhuma vontade de ultrapassar, estando bem de acordo com essas linhas vermelhas. Agora, esses círculos de confiança estão longe de ser escrutinados. A ideia que temos de que há um verdadeiro escrutínio da vida política é uma das maiores ilusões que existem sobre a Terra e em Portugal, em particular.

E o que acontece é que o que o António Costa está a fazer ― bem ou mal, isso tem de ser medido pelos resultados e essa medida é muito escassa (porque ou se usam estatísticas genéricas que têm a ver com problemas estruturais que já vêm de há muitos anos e que não melhoram nem pioram ― é que, na verdade, ele tem muito dinheiro para gastar, precisa de o gastar com um mínimo de controlo e precisa de apresentar resultados. Precisa que a situação económica e social das classes mais baixas não se deteriore de forma significativa, precisa de se dar bem com os grandes interesses económicos, precisa de não prejudicar particularmente muito do mundo empresarial e, portanto, ele tem de andar a fazer aquele jogo e, por isso, precisa de equipas que ele controla, em que manda e que na realidade não se metem em aventuras. E uma parte dessas aventuras é a questão das reformas: toda a gente é a favor de reformas e de reformas estruturais de fundo; mas eu era capaz de fazer aqui uma lista de algumas dessas reformas em que ninguém concorda e, no entanto, são certamente mais relevantes, em muitos casos, para mudar a situação do País e para melhorar as condições de vida das pessoas.

Eu só estou a dizer que o Governo está a seguir uma linha de prudência para tentar executar; a vontade é executar, o António Costa tem vontade de executar. Sendo que tem dado vários tiros nos pés com as escolhas, umas vezes com problemas graves e outras vezes com mini-problemas mas, como agora tudo funciona da mesma maneira, tudo tem um efeito de usura sobre o Governo. E as condições para haver reformas de fundo não são políticas ― não há condições políticas nem à Esquerda nem à Direita, nem há condições de maleabilidade política para as fazer; portanto, eu defendo uma coisa que ninguém defende que é navegação à vista: se navegarem bem à vista da costa, atravessam este período, se não navegarem bem à vista da costa, afundam-se.

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