O ciclo de vida-morte é
imparável e nos últimos tempos tenho visto desaparecer com mágoa gente que me marcou
intelectualmente para sempre, influenciando a trajetória do meu pensamento na
economia, subvertendo (no sentido que Hirschman lhe atribuía) aqui e acolá o
que poderia ter sido uma carreira, sobretudo académica, mais canónica e
alinhada pelo que agora se designa de mainstream.
António Simões Lopes (ASL)
foi uma dessas personalidades. É curioso que a sua matriz de pensamento tem um
ponto de partida bastante similar que é a problemática do desenvolvimento. ASL
foi dos primeiros a considerar que falar de desenvolvimento regional, de
desenvolvimento endógeno ou de outras adjetivações equivalia a ceder à tentação
de uma redundância. O desenvolvimento, embora conflitual e gerador de tensões
de representações sobre o futuro e de profundas controvérsias sobre as trajetórias
ou caminhos para lá chegar, tem capacidade para integrar no seu seio a questão
regional ou territorial. O desenvolvimento para manifestar-se tem também que
revestir uma dimensão espacial ou territorial. Por isso, a plenitude do
desenvolvimento atinge-se quando, para além da igualdade de oportunidades entre
os indivíduos (e entre homens e mulheres para integrar a igualdade de género),
se integrar também a questão da igualdade de oportunidades entre territórios e
da decisão livre de neles residir ou não residir.
A consistência do
pensamento do Professor é algo que atravessou profundamente tudo o que tenho
escrito sobre a problemática regional, vista na perspetiva do alargamento das múltiplas
dimensões do desenvolvimento.
No artigo que
publiquei no Compêndio de Economia Regional coordenado na edição mais recente
da PRINCIPIA por José Costa e Peter Nijkamp (2009), designado de “As políticas
e o planeamento do desenvolvimento regional”, homenageei essa influência
marcante (que seguramente é extensiva a todos os estudantes de economia
regional que leram o seu manual) com uma citação de ASL, retirada de um dos
seus artigos mais marcantes, “Desenvolvimento: desenvolvimento regional”,
publicado no Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em
1979. Reproduzo essa citação, agora como homenagem a título postumo, conhecida
a sua morte através de uma notícia primeiro da Associação Portuguesa do
Desenvolvimento Regional cuja constituição partilhei com o Professor e alguns
resistentes, depois da própria Ordem dos Economistas de que foi o primeiro
bastonário:
“Não
há decisão – seja ela do tipo global ou sectorial – cuja implementação não
imponha a sua tradução no espaço, devendo ele surgir como o elemento integrador
por excelência desde que existam possibilidades de utilização da instância
intermédia entre o planeamento urbano e o planeamento global – sectorial; a
integração ficaria então plenamente assegurada (o urbano no regional este no
global) e as possibilidades de eficácia mais garantidas; mas isso significaria,
então, que o desenvolvimento passa pelo desenvolvimento regional ou, como na
realidade tem de ser visto, desenvolvimento e desenvolvimento regional são
apenas uma e a mesma coisa: todo o desenvolvimento tem de ser desenvolvimento
regional”.
Ideias simples, mas
fundamentalmente revolucionárias e sobretudo o melhor antídoto para a menorização
com que alguns de nós tendem a ver os caminhos científicos do desenvolvimento
regional, inculcando a pretensa superioridade do mainstream sem qualquer sensibilidade para o território ou para o
espaço. Homem de pensamento católico, ASL nunca rejeitou o apelo cívico das
causas regionais e territoriais. São estas ideias que resistem ao efémero das
modas conceptuais mais ou menos embelezadas pela sofisticação quantitativa. O
ciclo da vida-morte alarga-se e complexifica-se, pois estas ideias persistem e
serão responsáveis por nova investigação regional e territorial que será a melhor
via para fazer perdurar na memória o pensamento do Professor. Vale a pena viver
para conhecer gente desta grandeza de ideias.
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