segunda-feira, 6 de outubro de 2014

DIZ VALDIS

(Gatis Sluka, http://www.karikatura.lv)

Hoje dei-me ao trabalho de ir ouvir a audição de mais um comissário nomeado, no caso o ex-primeiro-ministro letão Valdis Dombrovskis (VD) que Juncker foi mandado escolher para vice-presidente encarregado do Euro e do Diálogo Social. Uma verdadeira seca, entre lugares comuns repetidos à exaustão e aparências de concessão cirurgicamente ensaiadas para servirem de melodia aos disponíveis ouvidos dos chefes socialistas europeus, tão entusiasmados que andam com a “grande coligação” que a Direita lhes comprou por uns pratos de lentilhas.

VD é um defensor convicto das políticas de austeridade – área a que ficou politicamente ligado pelo pacote que negociou com o FMI e aplicou sem dar mínimas tréguas ao seu povo e área em que quis ir ao confronto com Krugman por este ter afirmado que “a adulação a propósito da Letónia diz-nos realmente mais sobre aquilo em que a elite política europeia quer acreditar do que o faz quer sobre as realidades da experiência letã quer sobre os fundamentais da macroeconomia” – que tanto contribuíram para a visível desgraça que foi e é a nossa (portuguesa e europeia). Mas parece também ser um rapaz bem mandado que, educado nos velhos princípios de obediência soviética, nunca se escusou a cumprir as ordens mais convenientes a cada momento e assim acabou por se tornar um leal servidor político dos falcões que mandam na Europa.

O que me ficou a faltar saber foi se VD é finalmente aquele pobre diabo bonacheirão por que se quis fazer passar hoje perante os eurodeputados que mais seriamente o avaliavam ou se acabará por vir a revelar uma outra natureza, mais belicosa e capaz de fazer a vida dura a Moscovici e a alguns países mais vulneráveis. De todo o modo, e só por descargo de consciência, deixo referidas de seguida algumas coisas viradas para o futuro que a criatura lá foi deixando ditas: que reconhece a necessidade de fortalecer a dimensão social da UEM, que futuros programas de ajustamento contemplarão obrigatoriamente os impactos social e no emprego, que o papel dos vice-presidentes será de mera coordenação (e não de supervisão de outros comissários), que trabalhará em equipa e em constante diálogo com o Parlamento Europeu, que haverá arranjos pragmáticos no colégio de comissários e em termos de representação externa, que there is a scope for more stimulus demand in surplus countries (em inglês, para pôr nos termos exatamente saídos da sua boca não mentirosa)...

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