sábado, 18 de outubro de 2014

SERVIÇOS TRANSACIONÁVEIS



Uma parte não despicienda da nossa formação em economia foi desenvolvida com base no pressuposto ou na ideia de que os serviços apresentam predominantemente uma dimensão não transacionável, ou seja, que apresentam um sistema de formação de preços que não é ditado pelas condições prevalecentes nos mercados internacionais. Desta ideia ou pressuposto retiramos algumas leis estruturais fundamentais da economia, sobretudo a que nos diz que os preços relativos dos serviços tendem a aumentar com o nível de desenvolvimento económico. Em ideias simples: em Portugal, o preço de uma camisa de marca (100 euros) equivalerá a 100 cafés (1 euro); porém, se nos deslocarmos para uma economia como a Noruega ou a Suécia, o preço de uma camisa similar equivalerá a muito menos cafés, já que nesses países o preço relativo de um café (serviço) será bastante mais elevado do que em Portugal.
Será que esta lei estrutural tendencial terá deixado de funcionar? Não inteiramente, porque uma parte não negligenciável dos serviços continua a ser não transacionável e a ter o seu preço essencialmente determinado pelas condições internas dos países (custos salariais, sobretudo). Por muito que o quiséssemos praticar para ganhar dinheiro com a arbitragem de mercados, não podemos produzir o café aos preços de Portugal e vendê-lo na Suécia aos preços locais.
Mas isto não significa que não tenhamos de abrir os olhos e melhorar a formação em economia nessa direção. E abrir os olhos a quê? No fundo, trata-se de compreender que a própria evolução do comércio e da economia mundiais, sobretudo com a fragmentação do processo de produção, distribuindo pelo mundo a produção de componentes intermédias necessárias para a formação de um dado produto, tem vindo a revolucionar o papel dos serviços e a atribuir-lhes uma dimensão cada vez mais transacionável. Os economistas chamam a este processo as Cadeias de Valor Globais e a sua movimentação pelo mundo tende a gerar as chamadas “supply chains”, cadeias de oferta que gerem a localização distribuída pelo território mundial.
Dani Rodrik, um economista de eleição para este blogue, chama a atenção para esta transformação no Project Syndicate, fazendo-o de um ponto de vista que não pode deixar de ser invocado para discutirmos em Portugal uma agenda de futuro, seja a Agenda para a Década de António Costa, seja uma outra agenda qualquer que pense a longo prazo o futuro do país. O ponto de vista de Rodrik é a de que os serviços podem vir a substituir o motor da indústria transformadora como motor de crescimento das economias menos desenvolvidas. Invoca para isso investigação recente realizada por economistas do Banco Mundial (Ejaz Ghani e Stephen O’Connel) publicada em artigo sob o título “Can Service Be a Growth Escalator in Low Income Countries?”. Portugal não é uma economia de baixo rendimento, mas o tema interessa à construção de uma alternativa de futuro para a economia portuguesa. A Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP) tem-se batido pelo reconhecimento da dimensão de transacionalidade dos serviços e compreende-se essa atitude como atitude crítica face ao lobby industrialista em Portugal e à sua capacidade de afirmação no acesso aos Fundos Estruturais. Procurando a economia portuguesa os rumos dos transacionáveis, compreende-se que não será indiferente reconhecer que os serviços são já em grande medida transacionáveis e que estão presentes nas exportações portuguesas.
A grande questão prende-se como é que a economia portuguesa se articulará com players internacionais para estar nessas plataformas de internacionalização dos serviços. Veja-se, por exemplo, a questão do turismo-saúde que tanto estimula as propostas de alguns economistas em Portugal. A questão é então a seguinte: teremos players no turismo e na saúde capazes de projetar o território nacional nessas plataformas? Uma boa questão para uma agenda de longo prazo.

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