quarta-feira, 13 de junho de 2012

ALEXIS E O ENTORNO


Os dados são contraditórios. Certamente porque o são também os protagonistas e as suas escolhas. O que é típico da mudança e da transição para ela, sobretudo de uma mudança tão profunda, complexa e longa como a que se desenrola sob os nossos olhos. Independentemente de para onde ela nos possa vir a conduzir.

Neste quadro, toda a análise só pode ser precária e tentativa. Porque, se nunca o futuro se deduz de uma simples extrapolação do passado, as configurações a nascerem de momentos como o atual podem ser fundamentalmente imperscrutáveis em tempo real. Mas a informação acessível, mesmo a um observador normal, sempre vai permitindo a junção de algumas pistas.

Peguemos, pela sua adquirida centralidade, na palavra de Alexis Tsipras (acima enfrentando Merkel numa ilustração de Rainer Hachfeld em http://www.neues-deutschland.de) tão subitamente espalhada pelo mundo e que seguidamente sistematizo numa tipologia tripartida.

·         Tipo A – acantonamento numa espécie de “superioridade moral”:
“it was not your fault – it was theirs / “the fish always stinks from its head” / “lutar contra a economia subterrânea, que se tornou uma espécie de gangrena na economia grega” / “as coisas não se passam como se tivéssemos um gene especial que nos torna evasores fiscais” / “não consigo compreender porque é que, nos últimos dois anos e meio, andamos à roda da nossa cauda quando se trata de tributação” / “não queremos desculpar-nos por um setor público que não criamos”;

·         Tipo B – diagnóstico por dentro do sistema:
“a razão [da crise] está na estrutura sobre a qual a união económica e monetária europeia foi construída”, especialmente “a falta de um banco central que possa atuar como banco central” / “a política que queremos implementar – sem austeridade mas dentro da Zona Euro – é a única realista” / “evitar mais pauperização deste país” / “quando alguém está na bancarrota e, em lugar de lhe dar a oportunidade de trabalhar para pagar a dívida, se lhe concedem empréstimos para pagar os últimos compromissos sob condição de que nunca mais trabalhe” / “um [caminho] conduz a uma morte lenta e tortuosa e o outro é o caminho da recuperação e da dignidade, que é difícil mas conduzirá a sair da crise” / “não precisamos de tempo, precisamos de vontade política”;

·         Tipo C – aposta no “bluff” contra a chantagem e consequente esticar de corda:
“a Grécia está numa situação tipo guerra fria” em que “ambos os lados podem carregar num botão e destruir tudo, sabendo que não haverá vencedores no final” / “isto é um problema comum”, ou seja, um problema grego, de Merkel, da Europa, do mundo / “uma guerra entre o povo e o capitalismo” / “se eles pararem de financiar a Grécia, darão luz verde aos mercados para expandirem a sua especulação agressiva a Espanha e Itália e estes países serão também atirados para fora dos mercados” / “os europeus têm de compreender que não temos qualquer intenção de avançar com um movimento unilateral” e “só seremos forçados a atuar se eles atuarem unilateralmente e fizeram o primeiro movimento” e, ainda, “se eles pararem o financiamento, não seremos capazes de pagar aos credores” / “acredito que os líderes europeus terão a coragem de reconhecer que é melhor admitirem o seu erro do que arriscar o bem-estar de milhões de pessoas pela Europa fora”.

Procurando afastar quaisquer juízos de valor, diria que se pressentem indícios de uma inédita conjugação de circunstâncias:
  • por um lado, interesses privados atingidos pelos excessos da sua própria desregulação/extensão global e assim colocados na defensiva (p.e., os bancos alemães não têm a solidez e a estabilidade da economia alemã no seu conjunto), embora em continuada procura de limitação dos danos e de reposição das condições de acumulação – “aqueles que ganharem as próximas eleições terão de decidir se aceitam estas condições ou não”, tudo “depende dos gregos”;
  • por outro lado, a ação pública de um povo atordoado/revoltado e de um agrupamento partidário (formado por ativistas oriundos de várias esquerdas revolucionárias) que inesperadamente parece ir-se predispondo a recuar no romantismo utópico dos seus princípios fundadores e assim querer acomodar a prática concreta e a negociação.


Talvez que uma mais provável chegada à frente da “Nova Democracia” em 17 de junho signifique que nada disto venha a ter qualquer importância efetiva (ver o meu post “Contas gregas” de 4 de junho e a estimativa das probabilidades atribuídas pelo “Deutsche Bank” no quadro acima). Sendo que, se o improvável ocorresse e o SYRIZA fosse o mais votado, tanto poderíamos estar face a uma aventura perigosa como na antecâmara de uma situação dotada de alguns ingredientes de inovação político-social…

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