domingo, 17 de junho de 2012

KARAGOUNIS


Regresso às metáforas futebolísticas. E seguramente não é orgulho “lampião” a vir ao de cima. Na verdade, os dois “heróis” deste post, Santos e Karagounis, passaram pela instituição, um foi mal tratado, outro provavelmente mal integrado ao serviço de uma estratégia coletiva, revelando por isso fragilidades da organização. Não, não é seguramente por esse motivo. Mas o futebol tem destas coisas. Ontem, voltámos a ser todos gregos, porque metaforicamente se confrontavam naquele terreno dois símbolos: um país instável e em dificuldades, mas soberano e solidário contra uma velha Rússia, mas uma Rússia especial – afinal a primeira seleção que resulta do ressurgimento económico em forma de capitalismo de estado, visível no também ressurgimento económico dos seus principais clubes e consequentemente uma seleção não feita da diáspora, mas de jogadores na liga nativa.
E como dizia pertinentemente Freitas Lobo, nem sempre a melhor e mais poderosa seleção ganha, ainda por cima orientada pela cultura de jogo holandesa. O que está por detrás da seleção grega não é simplesmente uma coragem indómita. Há uma cultura de aproveitamento eficiente dos parcos recursos, a não incomodidade com a aceitação da superioridade do outro e a capacidade de jogar com o erro do adversário e o tirar partido da incapacidade do outro de saber gerir o pós-erro. Tudo isto com um português a orientar tudo isto, a metáfora transforma-se em coisa bem mais profunda. Fernando santos tem um estilo de liderança que merece um caso de estudo. Permanentemente angustiado, com o padrão típico de um síndroma qualquer em torno das vias biliares, as imagens finais não enganaram quanto à aceitação da liderança, a sua distendida libertação, enfim um sorriso rasgado, um salto até, digam lá se o futebol não é uma metáfora completa.
E regresso ao herói do post, Karagounis. Vejam e revejam o lance da alegada (bem discutível) simulação de grande penalidade que lhe valeu o cartão amarelo e o seu afastamento dos quartos de final (afinal a tragédia grega não poderia faltar). Karagounis protesta, vocifera, enquanto pressiona simultaneamente o coração e o símbolo do seu emblema nacional, benze-se, tudo com um esgar de rosto inconfundível, numa metáfora plena do que significa hoje ser grego e aí viver. Haverá por certo quem se interrogue sobre o impacto que terá esta vitória grega nas eleições de hoje. Prefiro não divagar e concentrar-me no que significa aquele tipo de reação, aquela maneira de contestar uma decisão. E a Europa também tem de ser construída com e a partir destas realidades.

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