sábado, 9 de junho de 2012

MESMO NA MOUCHE


O último post do amigo Freire de Sousa, “Murphy à Portuguesa”, constitui um tiro certo não só numa evidência, mas também em convergência com algumas das minhas obsessões sobre a história recente.
De facto, a desvalorização dos problemas de balança de pagamentos associados à perda de soberania monetária portuguesa e à entrada na moeda única, tão limpidamente transparentes no discurso de tomada de posse no Banco de Portugal em 2000, é das matérias mais preciosas para uma avaliação da história macroeconómica portuguesa recente. Ainda bem que o referido post o evidenciou para memória futura deste blogue. E não constitui anátema pequeno para a memória recente do PS que tardará a distanciar-se dessa herança. Aliás, há aqui investigação económica e histórica a fazer em torno dos efeitos reais que essa desvalorização assumida (do problema e não da moeda, claro) terá provocado na condução da política económica portuguesa.
Mas há uma outra interrogação da história recente que me tem obcecado e sobre essa tenho a consciência tranquila de a ter denunciado preto no branco nos dois relatórios de avaliação global de 2003 e 2005 do III Quadro Comunitário de Apoio 2000-2006.
De que é que se trata?
Trata-se de uma contradição insanável da qual a economia portuguesa ainda não recuperou e da qual tardará a fazê-lo. A questão é esta. Enquanto uma parte considerável do tecido produtivo e empresarial português mergulhava num longo ajustamento aos novos rumos da globalização, carecendo por isso de políticas públicas que favorecessem esse ajustamento, a política de afetação de recursos públicos favorecia, pelo contrário, um modelo baseado até à exaustão na promoção de não transacionáveis e sobretudo na dualidade infraestruturas-imobiliário.
É claro que há uma clara interação desta interrogação com a primeira. Mas a história macroeconómica recente necessita de aprofundar as razões do não peso do rei vai nu. As variáveis disponíveis para o fazer estavam amplamente disponíveis, a começar pela evolução do crédito bancário.
A subida consequente do preço relativo “’preço bens não transacionáveis’/’preço dos transacionáveis’” e o efeito demonstrativo que provocou no desvio do investimento privado ficará como uma das mais espantosas omissões ou desvalorização de problema que a história macroeconómica portuguesa recente.
E parece que tudo começou com o raio de um discurso de tomada de posse em 2000. Haverá memórias ou reflexões simplesmente académicas de personalidades cruciais que serão matéria fundamental para esclarecer esta opacidade dos verdadeiros problemas.
Quando é que o colega Fernando Teixeira dos Santos começará a escrever sobre isto?
Na verdade, acho que esta questão é bem mais importante do que a já mais estudada antecâmara do pedido de ajuda às autoridades internacionais e processo do PEC4.
E também aqui o PS necessita de estabilizar a sua posição crítica sobre a matéria, ainda que isso possa doer a parte do grupo parlamentar. É a vida.

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